Leonore Serraille tem se afirmado no cinema francês num espaço muito próprio. Primeiro foi “Jeune Femme”, onde a energia solitária, carregada de infelicidade e obstinação, de Laetitia Dosch fazia desaguar no espectador uma comédia dramática com um charme inquestionável. Depois veio “Mãe e Filho”, uma comovente aventura de migrantes muito sustentado na sua protagonista, interpretada por Annabelle Lengronne. 

Colocando o universo feminino de lado e tendo agora um homem no centro de todos os dilemas, problemas e resoluções, Serraille trouxe até à Berlinale “Ari”, um drama dado a improvisações (diálogos, reações) que se sustenta na forma ternurenta e complexa como o ator Adranic Manet agarra o papel de um jovem tenso e sensível que ainda vive com o pai viúvo e não se consegue impor no mercado de trabalho (e na vida em geral). É com as suas tentativas de conseguir um emprego como professor numa escola primária que o filme arranca, produzindo alguns risos e sempre com uma toada de ficção que traz colada a si uma códigos documentais e a estética de filme guerrilha que se vai construindo em grupo. 

Logo pela forma como Ari não se consegue impor perante as crianças, percebemos as suas fragilidades, que consecutivamente vão sendo expostas em diálogos com o pai, com alguns amigos e, derradeiramente, com uma ex-namorada (Clémence Coullon) que engravidou no passado e à qual pediu para abortar. No meio de inúmeras sequências tagarelas de conversa, que tanto nos enfiam em becos (como a cena de Ari com um jardineiro), como nos abrem portas para a sequência seguinte (em direção à história de Ari e a ex-namorada, Irene), Leonore Serraille vai estudando, desconstruindo e construindo uma personagem particular, criando assim um objeto com natural ternura e interesse, mas que frequentemente parece andar perdida como qualquer curta-metragem enfiada nas roupas de uma longa. 

E embora longe de ser uma verdadeira perda de tempo ou um real tropeço na carreira de Serraille, “Ari” sente-se sempre inacabado, pouco polido e com muito mais potencial do que aquele que nos apresenta ao longo da sua duração.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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