Ventos de consagração internacional começaram a soprar com força na direção da dinamarquesa de origem egípcia May el-Toukhy depois de Queen of Hearts ter conquistado o Prémio do Público em Sundance, onde chamou a atenção para uma trama sobre um romance proibido entre um rapaz e a madrasta. L’Été dernier (2023), de Catherine Breillat, seria a sua refilmagem francófona, com Léa Drucker no lugar da majestosa Trine Dyrholm. Ficava então a certeza de que a cineasta escandinava, em atividade desde 2001, tinha material original para atravessar outras línguas do Velho Mundo — e outros continentes — ao falar de mulheres em situações de risco, ameaçadas pela possibilidade de verem os seus segredos expostos.

É esse o tema de Woman Unknown (Kvinde Ukendt no original), que passa pela Mostra de São Paulo como Mulher Desconhecida, numa tradução literal. As suas sessões esgotam num piscar de olhos, impulsionadas também pelo facto de esta produção ter vencido o Leão de Ouro de 2026, superando na competição nomes como Werner Herzog, Hirokazu Koreeda e Lee Chang-dong. Foi uma vitória polémica. As controvérsias, porém, não devem esconder a retidão com que a artista se debruça sobre a sua protagonista, procurando esmiuçar-lhe a alma e devassar-lhe os medos quadro a quadro. É uma sessão de (psic)análise rica, apesar de uma moldura estética corriqueira e pouco notável.

Woman Unknown deixou o Lido ainda com a consagração da sua protagonista, Mathilde Arcel, distinguida com a Coppa Volpi de Melhor Atriz. O seu desempenho não é vulcânico. Nada em cena o é. Ainda assim, a sua interpretação minuciosa alcança uma investigação psicanalítica densa, sustentando bem a dinâmica ágil da condução de cena que marca o trabalho de May desde Stykke for Stykke (2009).

Coprodução da Dinamarca, Suécia e Letónia, a longa-metragem tem argumento assinado pela própria realizadora em parceria com Maren Louise Käehne e reúne no elenco Carsten Bjørnlund, Thorbjørn Hedegaard e Marina Bouras. A equipa técnica pouco acrescenta ao padrão das reconstituições de época ligadas à Segunda Guerra Mundial, em especial pela falta de ousadia do diretor de fotografia Jasper J. Spanning e até do montador Rasmus Stensgaard Madsen, ao jogar com diferentes perceções do tempo. Mais sorte têm o compositor Mikkel Hess e a designer de produção Sabine Hviid, que entrega à direção artística um detalhismo meticuloso.

A trama decorre na Dinamarca nos dias que se seguem à libertação da ocupação nazi, em maio de 1945. Marie (Arcel) é uma jovem ama e empregada doméstica prestes a casar-se com Christian (Bjørnlund), o rico e mais velho viúvo para quem trabalha. A união parece oferecer-lhe a possibilidade de abandonar a condição de criada e conquistar uma posição social privilegiada, mas Marie guarda um segredo: durante a guerra, manteve uma relação íntima com um soldado alemão.

Com o fim da ocupação, a euforia da libertação convive com a perseguição às mulheres acusadas de se relacionarem com o inimigo, muitas delas submetidas à humilhação pública e à violência. Ao abordar este capítulo traumático da história europeia, May desloca o foco dos vencedores e dos grandes feitos militares para o corpo feminino, transformado em território de punição e disputa moral.

“O que está realmente no centro desta história é o corpo feminino como campo de batalha”, afirmou a cineasta em Veneza.

Esse resultado ganhou também uma dimensão política numa edição de Veneza marcada pela discussão em torno da reduzida presença de mulheres na competição principal. Quando a seleção foi anunciada, Woman Unknown era o único filme concorrente realizado a solo por uma mulher; posteriormente, o documentário NAZA, codirigido por Rachel Szor e Yuval Abraham, também entrou na disputa. A escassez de realizadoras reacendeu as críticas à desigualdade de oportunidades no circuito internacional, enquanto May denunciou o culto do “génio masculino” e as barreiras estruturais enfrentadas pelas cineastas.

A passagem do filme pelo festival teve ainda um incidente técnico: durante a estreia mundial, a realizadora e o produtor Mikael Rieks interromperam a sessão depois de perceberem que as legendas em inglês estavam dessincronizadas. A projeção foi retomada cerca de 15 minutos antes do ponto da interrupção, para que o público e o júri pudessem acompanhar a história corretamente. O episódio não impediu a consagração: a sessão terminou com uma ovação de aproximadamente sete minutos e meio, antes de a longa-metragem sair da terra das gôndolas com o principal prémio, mesmo apostando numa estrutura narrativa visual convencional.

A maturidade de May na forma como narra a perseverança feminina é o seu principal trunfo, ao lado da maneira crua como recria abusos sexistas disfarçados de justiça popular. De festival em festival, de Veneza à Mostra, o circuito cinéfilo vai reconhecendo o vigor poético — e a urgência política, no combate ao sexismo — da produção, escolhida como representante oficial da Dinamarca na corrida a uma nomeação ao Óscar de Melhor Filme Internacional.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
woman-unknown-pulsao-politica-acima-das-convencoesA maturidade de May el-Toukhy na forma como narra a perseverança feminina é o seu principal trunfo, ao lado da maneira crua como recria abusos sexistas disfarçados de justiça popular.