Num Myanmar de grande instabilidade política e económica, atravessado por deslocações internas e externas que empurram muitos jovens das aldeias para as zonas industriais de Yangon, e daí para outras paragens territoriais — fala-se da Malásia e de Singapura como destinos migratórios —, a fábrica torna-se um espaço primordial para garantir a sobrevivência, mesmo que quem trabalhe nela viva com salários baixos, jornadas repetitivas e uma promessa frágil de conseguir uma vida melhor. Nelas, são principalmente as mulheres que surgem como território explorado pelo capital, num ambiente patronal em que a precariedade do emprego gera sempre receio de pedir melhores condições.

É nesse cruzamento entre migração interna, exploração laboral e intimidade reprimida que chega a Karlovy Vary, na competição pelo Globo de Cristal, Fruit Gathering (Thit-thee Khu), a primeira longa-metragem de Aung Phyoe, um pequeno filme que segue duas jovens operárias de uma fábrica têxtil em Yangon, San Kyi (Nandar Myat Aung) e Theint Theint Oo (Nandar Myint Lwin), que se tornam amigas.

Tocando em tópicos que tanto nos levam a Made in Bangladesh (2019), de Rubaiyat Hossain, na forma como observa o trabalho têxtil e a resistência no feminino, como a The Road to Mandalay (2016), de Midi Z, pelo retrato de corpos birmaneses empurrados para a precariedade, e até mesmo a Rafiki (2018), de Wanuri Kahiu, pela evocação de um potencial amor entre duas mulheres socialmente condenado, este primeiro filme de Myanmar a ser selecionado para a principal competição do festival checo vai da delicadeza do encontro entre San Kyi e Theint à brutalidade da constatação de um desejo desigual entre ambas. 

É que, se San Kyi lê os gestos de cumplicidade e proteção, que incluem pequenos empréstimos, como promessa de proximidade, já Theint, que a certa altura diz ter um marido que partiu para a Malásia para escapar ao serviço militar, aceita essa intimidade, mas nem sempre lhe dá o mesmo significado e importância. E se o capital dominam as duas, a sua relação, que também é económica, liga a possibilidade de amor à precariedade. Assim, o sentimento de posse que San Kyi revela ter, aliado à sua solidão profunda e à dificuldade em comunicar com os outros, é a chave de um filme sobre desigualdades, sejam estas económicas na relação patrão/empregado, sejam afetivas, na relação entre as jovens.

Esteticamente, Fruit Gathering aproxima-se do documentário, sobretudo na forma como observa o terreno fabril, os espaços degradados, a pobreza quotidiana e a ausência de direitos laborais. Mas esse realismo social seco é contrastado por simbolismos que vão suurgindo, como o do caracol, que se esconde ou se protege na sua casca, mas também sai dela para viver. É uma imagem que dialoga com o desejo entre San Kyi e Theint, simultaneamente promessa de intimidade e de proteção. A isso junta-se o próprio título do filme, que remete para a colheita da fruta antes da época das monções, antes que se perca ou se estrague. No filme, essa ideia liga-se igualmente a San Kyi, que quer regressar à aldeia natal, mas deseja levar Theint consigo, ou pelo menos preservar a relação que tem com ela. A “colheita” torna-se então uma metáfora de cuidado e posse, como se San Kyi tentasse guardar algo que na verdade nunca lhe pertenceu.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
fruit-gathering-a-colheita-impossivel-de-um-desejo-desigualO sentimento de posse que San Kyi revela ter, aliado à sua solidão profunda e à dificuldade em comunicar com os outros, é a chave de um filme sobre desigualdades, sejam estas económicas na relação patrão/empregado, sejam afetivas, na relação entre as jovens.