Não é todos os dias que vemos guardas e presos unirem esforços para saírem vivos de uma prisão, mas é isso que acontece em Ghost in the Cell, filme de Joko Anwar, jornalista de cinema tornado cineasta em 2005 com a comédia romântica Joni’s Promise.

Mais conhecido pela série da Netflix Joko Anwar’s Nightmares and Daydreams, o realizador de obras como Dead Time: Kala, Satan’s Slaves e The Siege at Thorn High coloca um espírito vingativo dentro de uma prisão, levando primeiro os presos a tentarem controlar a raiva naquele espaço, pois é isso que atrai o fantasma para a chacina, e depois também os guardas prisionais, quando percebem que as macabras mortes no espaço encerrado afinal não foram obra dos reclusos.

Estreado na Berlinale, no Forum, e exibido em Karlovy Vary na sua “nova” Afterhours, Ghost in the Cell mistura filme de investigação jornalística, filme de prisão e thriller de horror splatter num espaço confinado e degradado, estilisticamente marcado pelo contraste das paredes acizentadas enfadonhas com os uniformes amarelo-vivo dos presos.

Tudo começa numa redação de jornal, com um jovem estagiário a estrear-se com uma peça que não só denuncia um esquema de corrupção no meio da floresta do Bornéu, como avança que algumas pessoas na região foram assassinadas. Furioso com a peça, o editor chama-o e exige uma revisão, mas logo depois é violentamente assassinado por algo que deixa o seu corpo esquartejado e pendurado no teto, como se fosse uma instalação artística macabra.

Ghost in the Cell

Passamos então para a prisão de segurança máxima de Labuan Angsana, onde somos apresentados às dinâmicas, aos diferentes gangues e a um considerável número de tarados, não apenas na população prisional, mas também na chefia da guarda, que resolve quase tudo com um cinto na mão. Todos os prisioneiros já se habituaram às injustiças sociais do país, transportadas também para a dinâmica hierárquica da prisão, mas vão ter de unir esforços quando o tal jornalista do início do filme entra na prisão para cumprir pena e leva consigo uma entidade vingativa.

O que se segue é um festival de carnificina, sempre com muito humor negro, incluindo no texto e nas mensagens anticorrupção, com Anwar a nunca querer realmente ser muito sério sobre o tema, preferindo antes dar um espetáculo delirante de sangue, tripas e artes marciais.

O grande trabalho do cineasta é nunca quebrar o ritmo quando faz naturais incursões de humor, que até envolvem dança e performance, no meio das cenas de luta e de violência extrema. Na verdade, o cineasta sabe muito bem equilibrar isso, o que se revela essencial para a sobrevivência de quem está em cena. É que o segredo é que a tal entidade assassina e esquartejadora escolhe as vítimas segundo a sua aura, que, ao tocar no vermelho do ódio e da agressividade, as transforma imediatamente num alvo. Por isso, no meio da pancadaria de meia-noite, há sempre alguém que avisa que a aura de um preso está “no vermelho”, obrigando-o a retrair-se e a acalmar, seja através de manifestações artísticas ou religiosas. E essa presença espiritual nefasta nunca é apresentada de forma visual, sendo o desenho de som essencial para nos conduzir até ela.

Extremamente atrativo para quem gosta do género, Anwar cria aqui uma espetacular incursão no fantástico dominado pelo absurdo, mas, nas entrelinhas, vai deixando algumas posições políticas e sociais sobre o estado da Indonésia no que concerne à corrupção e à prevaricação. Por isso mesmo, Ghost in the Cell é um filme essencial para aqueles que viajam frequentemente ao cinema fantástico à procura de sangue.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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