
Morreu aos 84 anos em o cineasta italiano Ettore Scola, realizador de filmes como Um dia inesquecível, Tão amigos que nós éramos e Feios e Porcos e Maus. A notícia é avançada pela imprensa italiana, que acrescenta que o realizador faleceu numa unidade de cuidados cardiacos num hospital em Roma.
Nascido em maio de 1931, em Trevico, Itália, Scala estudou direito e teatro, passando depois ao jornalismo e à rádio, nunca se podendo esquecer que com apenas quinze anos já desenhava para os periódicos humoristicos Marc’Aurelio e Il travaso delle idee. No início dos anos 50 começa a escrever guiões para o cinema. Em colaboração com Ruggero Maccari escreve vários trabalhos, como A Rival de Cleópatra (1954), Não Venhas Tarde (1955), O Bom Carcereiro (1955), O Solteirão (1955), O Conde Max (1957), O Inimigo de Minha Mulher (1958) e A eterna dúvida (1964). Com Domenico Paolella colabora em No Palco da Vida (1954) e Cavalgada de Canções (1954), enquanto com Lucio Fulci escreve guiões como Um Americano em Roma (1954) e Totó na Lua (1958).
Em 1964, estreou-se como realizador com os filmes Se permettete parliamo di donne e Tempos difíceis (1964). Até chegar ao seu primeiro grande sucesso internacional, Tão amigos que nós éramos (1974), filmou obras como Um Italiano em Angola (1968), Ciúme, ciúmes e ciumentos (1970) e Um Italiano em Nova York (1971). Em 1976 levou Feios, Porcos e Maus ao Festival de Cannes. Embora tenha perdido a Palma de Ouro para um tal de Taxi Driver, de Martin Scorsese, Scola saiu do Croisette com o prémio de melhor realizador.

Feios, Porcos e Maus
Descrito pelo crítico de cinema Gaston Haustrate nos anos 80 como um cineasta que «não cessa de inventar um grande cinema popular que tenha ao mesmo tempo inspiração, amplitude, força, clareza e poder de convicção», Scola conseguiu uma série de nomeações ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro com filmes como O Baile (1983) e A Família (1987). Um Dia Inesquecível (1977), O Terraço (1980), Fosca, Paixão de Amor (1981), A Noite de Varennes (1982) e Esplendor (1989) foram fitas também marcantes na sua carreira cinematográfica, a qual foi interrompida em 2003, logo após filmar Gente de Roma. Anos depois, o realizador viria a dizer que neste período não quis continuar a trabalhar por razões psicológicas: «perdi a fé nos principios que me guiavam e também o desejo que sempre tive em fazer filmes».
Antes de regressar e filmar Que Estranho Chamar-se Federico (2013), uma homenagem a Federico Fellini, Scola anunciou o fim da sua carreira no cinema em 2011, numa entrevista ao jornal Il Tempo, adiantando que já não sentia ter condições para trabalhar na industria do cinema da época, dando o exemplo de um projeto que estava a preparar com Gérard Depardieu, mas que teve de cancelar.
Segundo Scola, essa «foi uma decisão natural», acrescentando que não queria ser «como as idosas que continuam a sair de salto alto e baton nos lábios para ficarem junto dos jovens». A forma como a industria cinematográfica se comporta nos tempos de hoje, especialmente no meio desta crise, retiraram-lhe a «alegria e a leveza» com que encarava a profissão, admitindo que começava a sentir-se obrigado a respeitar regras que não o fazia sentir-se mais livre: «Hoje é o mercado que faz a escolha. Antes, também era importante, mas havia mais espaço para autonomia. Os produtores estavam dispostos a arriscar e fazer experiências (…) há certas lógicas de produção e de distribuição que já não têm nada a ver comigo», concluía.

Pif e Scola no Festival de Roma (Foto por Vittorio Zunino Celotto/Getty Images)
Casado com a argumentista e realizadora Gigliola Scola, recordamos que o cineasta tinha apresentado em outubro passado, no Festival de Cinema de Roma, o filme Ridendo e scherzando, um retrato biográfico, artístico e humano, assinado pelas suas filhas, Paola e Silvia Scola, que se muniam de clips das suas fitas, filmes em super-8, fotos emprestadas dos álbuns de família, desenhos, animações e uma entrevista a Pierfrancesco Diliberto (Pif) para contar a história da vida do pai.

