Depois deste “Martha Marcy May Marlene”, uma coisa é certa. Elizabeth Olsen não será mais conhecida como a irmã mais nova das gémeas Olsen, mas sim como a triunfante mulher que após ter pertencido a um culto regressa para junto da sua irmã (Lucy, interpretada por Sarah Paulson) e cunhado (Ted, interpretado por Hugh Dancy), atravessando um longo período de isolamento e paranóia, sempre recordando o que passou nas mãos do líder do culto (John Hawkes) – na linha de Charles Manson. E que interpretação, caros leitores!!!
Mostrando um trauma difícil de ultrapassar, o filme por vezes viaja em estilo nas regressões de “Zodiac” de Fincher ou “Code Unknown” de Haneke, cabendo ao realizador Sean Durkin a árdua tarefa de fugir aos clichés e ao sensacionalismo habitual dos filmes que envolvem seitas e os seus súbditos.
Aliás, neste “Martha Marcy May Marlene” denota-se muito trabalho de investigação, e uma certa paixão quando envolve a temática. O próprio realizador confidenciou isso: “Eu queria algo sobre os cultos mas que fosse contemporâneo. Muitas vezes os filmes lidam com este tema mas são datados nos anos 60 e 70. […] Eu estudei diversos grupos e encontrei diversas formas de manipulação e abuso – é sempre o mesmo, não interessa a religião, existe uma consistência generalizada nas formas de atrair as pessoas. E enquanto escrevia uma amiga minha foi muito generosa e partilhou comigo as suas experiências na matéria. Ela passou por algo similar, e por isso, muitas das incidências deste culto são baseadas na sua experiência.“
Mas mais importante que mostrar a manipulação deste grupo, esta extensão da curta-metragem ‘Mary Last Seen’, com que Dorkin conquistou Cannes, mostra a sensação de tempo perdido e a desilusão que as pessoas encontram quando olham para trás nas suas experiências, questionando mesmo como foram capazes de estar tão iludidas. E se inicialmente o filme começa num estilo morno, as transições e regressões puxam o espectador para uma trama turbulenta, por vezes com sensações de violenta repulsa, não sendo de estranhar a dificuldade que qualquer pessoa encontre em articular questões ao cineasta depois da experiência que se revela o seu filme.
Por isso, e tal como “Pariah”, “Martha Marcy May Marlene” acaba por ser uma típica e brutal obra de Sundance, só que Dorkin consegue ainda ser mais pungente.
Que belo começo em Sundance.
★★★★★ Mark D.Clark

