“Alguns pensam que não há diferença entre Ahmadinejad e Mousavi (candidato derrotado nas últimas eleições, e que tem liderado a contestação ao regime de Ahmadinejad). É como comparar a forma de pensar e de governar de Hitler com a de Gandhi”, afirmou a cineasta iraniana Samira Makhmalbaf em Paris.
Conhecida por filmes como “The Apple”, “Black Board” e “At Five in the Afternoon” – para além de ser filha do também cineasta Mohsen Makhmalbaf, realizador de “Kandahar” e “Gabbeh”- Samira tem sido um dos rostos do mundo do cinema do Irão mais activo na contestação ao resultado das eleições. Numa entrevista à Al-Arabiya TV, Samira vai mais longe e explica como tudo se processou: “Deixe-me explicar o que aconteceu no Irão. Na noite em que os votos foram contados, o Srº Mousavi foi contactado e foi-lhe dito que tinha ganho as eleições. Quando preparava o discurso de vitória, militares entraram no seu escritório e afirmaram que não aceitavam esta “verde”* revolução democrática. Levaram assim avante o golpe, colocaram o presidente eleito como refém, cortaram as comunicações com o exterior e desligaram o seu site na internet. Foi então que o canal público da República Islâmica do Irão anunciou que Ahmadinejad era o verdadeiro presidente. A partir daí proibiram o encontro de mais que quatro pessoas na rua, procedendo a detenções.
Nós não podemos fazer “barulho” já que as comunicações estão cortadas e a actividade jornalista suspensa ou muito limitada. Os jornalistas não podem trabalhar normalmente, ou são presos. O povo queria dizer ao mundo que Ahmadinejad não é um presidente legitimo. […} Ahmadinejad não se interessa pelo Irão. Ele manchou as nossas ruas com sangue do seu povo. Como pode ele dizer que se interessa pelos outros povos? Eu afirmo aqui perante os libaneses: não se deixem enganar por Ahmadinejad. Ele quer a guerra no Libano. Ele quer a guerra no Afeganistão e no Iraque. A falta de segurança e o medo trabalham a seu favor. Ele quer transformar-vos em vítimas dos seus interesses, e ele comete actos inumanos que levarão toda a região à guerra.”
Em França, os seus protestos tiveram continuidade por parte do seu pai e da também cineasta Marjane Satrapi (“Persepolis”). Na passada sexta-feira, em Paris, Mohsen e Samira assumiram-se como embaixadores da causa do povo iraniano e apelaram aos países ocidentais que denunciem o regime Khamenei-Ahmadinejad. “É preciso ouvir a voz e os gritos da rua e não reconhecer a eleição de Mahmoud Ahmadinejad. A presença das pessoas na rua é mais do que uma manifestação, é um referendo”, afirmou Mohsen, que há muito abandonou o Irão devido à sistematica censura que o governo fazia das suas obras.
Já uns dias antes, no Parlamento Europeu em Estrasburgo, Satrapi afirmava que “reconhecer Ahmadinejad é desvalorizar a legitimidade do povo iraniano […] É preciso que o Ocidente apoie o movimento democrático do povo iraniano que quer viver em paz, que quer poder sonhar e encontrar o seu lugar como uma grande nação no quadro da comunidade internacional”. Já Mohsen declarava que a ditadura estava montada: “Nos últimos 30 anos, o nosso país oscilava entre 20% de democracia e 80% de ditadura. Agora caímos na ditadura a 100%”.
Também Jafar Panahi – um cineasta que sempre foi muito crítico com o regime, transparecendo isso em obras como “Offside”, onde uma jovem fazia de tudo para conseguir iludir a segurança de um estádio de futebol para poder assistir a um jogo decisivo- se manifesta chocado com os desenvolvimentos.
Protegido de Abbas Kiarostami, o cineasta desde muito cedo se afirmava contra a censura estatal aos seus filmes, tendo mesmo tido alguns problemas com o regime quando em 2004, num documentário realizado por uma estação britânica afirmou que o mais provável era deixar de filmar no Irão.
Que impacto terá esta situação no panorama do cinema local ainda é desconhecido mas o certo é que Mohsen se afirma esperançoso. “Esta revolução cultural e o surgimento da internet são uma verdadeira revolução que terá impacto imediato no cinema do Irão. “Todos os estudantes se tornaram cineastas e com os seus telefones móveis filmam as ruas e o que se passa nelas”.
Mas será que o corte de ligações aos exterior não impedirá que esses videos cheguem até nós? Aparentemente não, e um caso horripilante é o video da morte de Neda Soltan, o “anjo da liberdade”, ou o “novo rosto da luta no Irão” como é apelidada, que chegou até ao público do ocidente.
Continuando ou não, uma coisa sabemos, pois a história não mente. Com protestos assim e com o crescimento do sentimento de revolta não há governo que aguente. E citando o filme “V de Vingança,” “(…) o povo não deve temer os governos. Os governos devem, sim, temer o povo.”
* Verde era a cor do candidato Mousavi.
Jorge Pereira

