Godard Cinema: Autopsia semiótica

(Fotos: Divulgação)

Ao fazer da sua morte, por suicídio assistido, em 13 de setembro de 2022, em Rolle, na Suíça, uma performance mediática, Jean-Luc Godard transformou a sua despedida num convite para um recomeço, “assombrando” festivais de todo o mundo com o seu legado. O montador e cineasta Cyril Leuthy (documentarista por trás do delicioso “Rendez-vous with Maurice Chevalier”) fez do ectoplasma teórico e imagético do realizador francês responsável por “À Bout De Souffle” (1960) matéria de uma pesquisa sobre o espaço que sobra para a semiológica no audiovisual de nossos dias. Partindo de imagens de arquivo, numa estética de desconstrução de um mito da “filmologia”, o realizador faz da sua nova longa-metragem, “Godard Cinema” (“Godard Seul Le Cinéma”), uma discussão sobre o papel de investigação experimental na seara europeia das artes. Não é uma biopic clássica. É um tratado sobre o Velho Mundo, nas suas tradições mais arraigadas, vistas a partir de um artista que as desafiou. Trata-se de uma autópsia cinéfila.

Leuthy abre o filme com uma panorâmica de resquícios visuais de Godard em ação, partindo do princípio retórico de que ele é o cinema em si, a sua quintessência. A sua “personagem” completou 91 anos, deixando cerca de 140 produções, entre curtas, longas, vídeos e séries. É tanto uma figura pública, quanto um homem cercado de mistérios, recusando-se a entrevistas, recluso no seu lar suíço. O que essa abordagem da sua herança para as telas faz é entender como ele fez da sua própria persona um signo de celebração da ousadia.

Lançado em Veneza, em 2023, uma seção de documentários sobre clássicos, “Godard Cinema” passou pelo É Tudo Verdade e flana agora pelo Festival do Rio, onde as sessões podem ser vistas no site . A primeira projeção será neste domingo, às 14h15 (19h15 em Lisboa), no Estação NET Rio, em Botafogo.

Este ano, Cannes exibiu um filme surpresa, de 20 minutos, construído por ele a partir de uma colagem de imagens de arquivo pouco antes de morrer, chamado “Drôles de Guerres”. Os seus colaboradores habituais, Fabrice Aragno, Nicole Brenez e Jean-Paul Battagia finalizaram a curta de 20 minutos, autoclassificado como “o trailer de um filme que jamais existirá” e definido como um ensaio sobre a overdose de signos que a internet deposita sobre nós, a cada segundo. Não bastasse isso, o realizador ainda ganhou uma projeção de gala de “Le Mepris”, que completa 50 anos em 2023. Esse é um dos títulos dos quais Leuthy mais se aproxima em “Godard Cinema”. Ele retoma uma máxima do homenageado, na qual ele defende: “As palavras não são um sinónimo de linguagem, pois linguagem é algo além, é um conjunto de procedimentos de como empregamos signos. O problema é que as pessoas articulam esses signos sem a coragem de fantasiar o que aconteceria se as convenções fossem usadas de outra maneira”;

No império do efémero que o mundo da mídia virou sob o garrote das fake news, Godard injetou poesia na semiologia, saiu de cena fazendo da sua partida um espetáculo transgressor, desafiando o Tempo, deixando como legado 118 filmes (entre curtas e longas-metragens) e mais 12 produções para a TV (entre séries e especiais). Segundo familiares e amigos próximos, entre eles, a mulher do realizador, a cineasta e produtora suíça Anne-Marie Mieville, a sua morte foi uma opção diante do cansaço que sentia. Levando-se em conta que há ainda anotações dele prontas para que Anne-Marie e os seus parceiros, Aragno e Battagia, deem partida a um novo filme, batizado por ele de “Scenario”. Tudo indica que vem mais coisa de Godard por aí, e a longa-metragem de Leuthy conversa com essa habilidade dele nos surpreender… mesmo depois de morto – mas, nunca enterrado, pelo menos não cinematograficamente.

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