Morreu, aos 75 anos, vítima de doença prolongada, o realizador francês Jean-Jacques Beineix, responsável por filmes como “Lua na Valeta” e “Betty Blue – 37º,2 de Manhã“.
Nascido em Paris a 8 de outubro de 1946, Jean-Jacques Beineix estudou medicina antes de entrar na indústria cinematográfica. Ainda na década de 1970 tornou-se assistente de realização de cineastas como Claude Berri, René Clément, Claude Zidi e até Jerry Lewis (The Day the Clown Cried). Foi em 1977, com “Le chien de Monsieur Michel”, que se estreou a solo, conseguindo uma nomeação ao César de melhor curta-metragem (ficção).
A sua estreia nas longas-metragens foi com “A Diva e os Gangsters” (1981), que lhe valeu nova nomeação aos Césars, embora várias críticas pela estética de “videoclipe”, repetindo-se o mesmo com “Lua na Valeta“, que deu que falar (pela negativa) no Festival de Cannes e não teve sucesso nos cinemas. Se muitos apontaram essa linguagem “publicitária” no seu cinema, outros defenderam – mais tarde – a importância que teve para abrir caminho para nomes como Luc Besson, Leos Carax e Jean-Pierre Jeunet.
Sobre a receção da crítica às suas primeiras longas-metragens, Beineix disse: “Quando “A Diva e os Gangsters” foi lançado, foi um fracasso. Os críticos não gostaram nada. Especificamente os da Nouvelle Vague. França é o pior lugar para se estar, para um realizador francês. Criticamente, foi destruído. (…) Demorou um ano inteiro para a “Diva” escapar dessa situação de total esquecimento, e foi na América que foi descoberto. Tive que lutar com o produtor para levar o filme para Toronto. (…) aplaudiram de pé! Tinha acabado de aterrar, estava totalmente desfasado, e entro no cinema e toda a gente está de pé a bater palmas. Achei que estava a sonhar ou num pesadelo. (…) Depois faço o “Lua na Valeta“, tenho dinheiro, ambições e estrelas. Filmo no estúdio mais mágico do mundo [Cinecittà]. Tudo foi muito pesado e foi como um sonho maravilhoso, onde voava nas asas da vitória. E então, bang, bang, bang: sou abatido. Foi muito assustador.”
Seria em 1986 que chegou o seu maior sucesso, “Betty Blue – 37º,2 de Manhã“, uma adaptação do famoso romance de Philippe Djian. Jean-Hugues Anglade, Gérard Darmon e Clémentine Célarié participam no filme, mas é a então jovem atriz, Béatrice Dalle, que faz furor.

“Depois de fazer o Director’s Cut de “Betty Blue – 37º,2 de Manhã“, abordei a Gaumont e disse que gostaria de fazer o mesmo com o “Lua na Valeta“, pois achei que poderia melhorar o filme. Eles disseram que não, porque destruíram tudo: todos os negativos, todas as filmagens que foram retiradas do corte final, foi-se tudo. Foi a pior coisa que aconteceu na minha carreira. Às vezes enfurece-me só de pensar nisso“, explicou Jean-Jacques Beineix.
Nomeado a 8 Césars e com sucesso nas bilheteiras (3,6 milhões de espectadores), “Betty Blue – 37º,2 de Manhã” é sucedido por “Roselyne et les lions“, um notório fracasso, e “IP5: L’île aux pachydermes” (1992), o último filme de Yves Montand. Sobre essa produção e a colaboração com Montand, Beineux disse: “Provavelmente, é o meu filme favorito. É um road movie, mas torci o género como faço com os outros que assinei – é supostamente um road movie, mas é, na verdade, uma busca por um amor real e verdadeiro. Yves Montand foi o ator mais fácil com quem já trabalhei, e essa experiência foi depois de trabalhar com Gérard Depardieu, que foi o mais difícil. Mas sejamos claros: Depardieu era difícil porque bebia demasiado na época. Fora isso, é um homem encantador e um ótimo ator. Ele conhece a câmara como nenhum outro nos dias de hoje“.
Foram precisos 9 anos para Beineix regressar ao grande ecrã, com “Transferência Mortal” (2001), o qual seria mesmo o seu último projeto pensado para o cinema. Após mais este desastre nas bilheteiras, o realizador apenas encontra espaço na televisão, em documentários de cariz social(“Loft Paradoxe” e “Les Gaulois au-delà du mythe“), e no teatro, encenando “Kiki de Montparnasse” (2015).

