Habituada a filmar lugares em transformação e a interrogar, a partir deles, a passagem do tempo e a memória, como se viu em Victoria, onde visitava o deserto de Mojave e a cidade inacabada de California City, Isabelle Tollenaere chega à ficção com Paris Paris, um objeto cinematográfico notável, que demonstra um domínio exemplar da mise en scène e um olhar preciso para a cidade e para os homens que nela vivem.
Apresentado na secção Proxima de Karlovy Vary e partindo da existência de “duas Paris”, a francesa, claro, e outra na China, numa réplica urbana em Tianducheng, Tollenaere cria uma pequena meditação sobre a casa enquanto construção instável, objetiva e intersubjetiva, aqui ameaçada pela cópia, pela especulação e pelo desaparecimento.
Enquanto a Paris chinesa surge como uma imagem-fantasma, uma sombra e uma espécie de simulacro que abre o filme também à ideia de autenticidade e deslocação, é na Paris francesa que a cineasta fixa a sua história, partindo do edifício brutalista Le Damier, integrado nos Grands Ensembles, que, apesar de estar previsto para demolição, serve de abrigo às três personagens migrantes nas quais centra a sua atenção: Yi-En (Yi-En Chen), Junior (David Mutamba) e Hamzah (Mahmoud Beshtawi).
Com o edifício como núcleo simbólico, Tollenaere olha para ele como uma presença quase alienígena dentro da paisagem parisiense, próxima do Sena e de La Défense, cuja demolição prevista, para dar lugar a torres de luxo, inscreve a marca de uma cidade que expulsa quem nela tentou criar raízes, em edifícios originalmente construídos para habitação popular, para abrir espaço a uma nova arquitetura do luxo. Em profundo contraste, os interiores da casa dos três homens são espaços quase vazios, apenas preenchidos por pequenos objetos, uma cadeira, um colchão, uma mesinha, com os quais a cineasta estabelece uma ligação às palavras que os migrantes aprendem nas aulas de francês. Chamar “casa” àquele lugar, ainda por cima sob a ameaça de expulsão, é assim um dos focos (e questionamentos) da realizadora, ainda mais perante um conjunto de migrantes que poderão, como outro já o fez, usar apenas o local como retiro temporário antes de dar o salto para outro lugar.
É nessa investigação que o filme encontra a sua dimensão mais delicada, e fascinante, pois a casa deixa de ser uma estrutura fixa para se tornar uma rede frágil de gestos, línguas, memórias e presenças, a que se junta depois uma das vizinhas mais antigas de Le Damier, Tatiana, como exemplo claro de resistência e de fixação a um lugar que transformou em casa, além de um gato e de um peixe que se junta ao trio de protagonistas.
Deixando que o real entre no filme através dos lugares, dos corpos e até do acaso, Paris Paris é um forte ensaio visual e político sobre habitação, gentrificação, migração e memória urbana. E a sua força está menos na progressão dramática do que na forma como olha para aquilo que está prestes a desaparecer, sejam os edifícios, sejam as pessoas, em permanente deslocação.
O resultado final é um filme absolutamente notável na beleza e na melancolia com que observa a diferença de velocidades entre a cidade e e quem tenta habitá-la.






















