Adaptação para língua inglesa da peça Los Vecinos de Arriba, de Cesc Gay, que o próprio autor já havia levado ao cinema no filme Sentimental, de 2020, The Invite é mais uma daquelas incursões cinematográficas que partem da marcação de um encontro entre casais para desembocar num bate boca aceso sobre desejo, frustração e reinvenção das relações afetivas.

Numa linhagem que vai de Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (1966) a Perfect Strangers (2016), sem esquecer Carnage (2011) e The Party (2017), The Invite serve de palco ao combate conjugal. 

No centro temos um casal em crise, interpretado por Olivia Wilde e Seth Rogen, que recebem para jantar os vizinhos aparentemente perfeitos, vividos por Penélope Cruz e Edward Norton. Rogen é o mais desconfortável com a reunião e ainda antes dos convidados chegarem ele sugere vezes sem conta cancelar o evento. Quando já é tarde demais, os vizinhos batem à porta e entram, o que começa como uma troca de galhardetes honestos evolui para revelações íntimas, algumas descobertas desconfortáveis e um convite que altera o rumo da noite  e do próprio filme. 

Depois de fazer da casa suburbana de Don’t Worry Darling (2022) um espaço de controle, Olivia Wilde volta em The Invite às aparências da intimidade. Aqui, toda a ação desenrola-se num único espaço, um sofisticado apartamento de São Francisco, ao longo de algumas horas durante uma noite, mas mantém-se o interesse por casais aparentemente funcionais que escondem profundos ressentimentos. A violência da palavra não começa, porém, no momento em que os vizinhos chegam, mas ainda antes, com uma troca de acusações mútuas entre Wilde e Rogen sobre a natureza do jantar e se devem ou não confrontar os convidados com algumas questões incómodas, em particular de Seth Rogen, agastado com o barulho frequente do casal nas suas sessões de sexo. 

Neste registo de forte teatralidade, Wilde carrega nela toda a repressão da relação, enquanto Rogen carrega raiva. Já Cruz e Norton surgem como um escape de sensualidade e charme que tanto intriga Wilde como irrita Rogen. É a partir daí que tudo se segue, com a cineasta a jogar frequentemente com a câmara a apontar para espelhos ou através de janelas como que mostrando várias personalidades de cada um dos objetos que filma, ao mesmo tempo que demonstra como o vasto apartamento bem apetrechado carrega nele a claustrofobia da relação.

Não trazendo efetivamente nada de novo como dispositivo, The Invite consegue ainda assim levar o espectador por entre risos e reflexões, fazendo parte de um cinema de e para adultos que cativa, mesmo que, em termos de ritmo, nem sempre consiga disfarçar a sua dependência da sucessão quase permanente de tiradas e confrontos verbais. 

O que sobressai é a precisão do elenco em disparar neuroses e a forma como Olivia Wilde mantém a tensão, transformando uma noite do soltar de frustrações numa tomada de consciência. Sim, há relações que já acabaram, mas para quem está nelas é difícil admiti-lo.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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