Um dos mais disputados redutos de investigação sobre as estéticas decoloniais das Américas que portugueses e espanhóis ocuparam nos tempos das Grandes Navegações, a mostra Horizontes Latinos anuncia um rol de atrações que amplia o poder de atração da 74.ª edição do Festival de San Sebastián, agendada de 18 a 26 de setembro.
Ao todo, são 12 longas-metragens produzidas total ou parcialmente na América Latina, realizadas por cineastas de origem latina ou ambientadas em comunidades latino-americanas, que disputarão o Prémio Horizontes Make & Mark. A seleção reúne títulos que passaram por alguns dos principais festivais do calendário internacional, como Cannes, Berlim, Locarno e Karlovy Vary, e combina nomes já conhecidos do circuito com estreias na realização. A abertura caberá a Siempre soy tu animal materno / Forever Your Maternal Animal, de Valentina Maurel, enquanto Narciso, de Marcelo Martinessi, encerrará a secção. Entre os restantes concorrentes estão filmes de Ricardo Alves Jr. (A Professora de Francês, na foto acima), Juan Miguel Gelacio e Esteban Hoyos García, Lorenzo Ferro e Lucas A. Vignale, Alessandra Sanguinetti, Dominga Sotomayor, Bruno Santamaría Razo, Diego Luna, Fernanda Tovar, Manuela Martelli e Fernando Eimbcke.
Vencedora, em Cannes, do prémio de Melhor Atriz de Un Certain Regard para Marina de Tavira, Daniela Marín Navarro e Mariangel Villegas, Siempre soy tu animal materno abre a Horizontes Latinos e mergulha nas fraturas de uma família costarriquenha. Depois de anos a estudar na Europa, Elsa regressa ao seu país e reencontra uma casa onde os vínculos familiares parecem ter perdido consistência. A irmã mais nova vive isolada, cada vez mais distante do mundo exterior, enquanto o pai se dispersa entre relações extraconjugais e a mãe se concentra na republicação dos poemas eróticos que escreveu na juventude. O novo filme de Valentina Maurel, nascida em San José em 1988, sucede a Tengo sueños eléctricos(2022), obra que lhe rendeu mais de 30 prémios internacionais, incluindo distinções de realização, interpretação e o próprio Prémio Horizontes de San Sebastián. A realizadora regressa, assim, ao território que ajudou a consagrá-la, agora com um drama familiar de contornos perturbadores.
Em estreia mundial, A Professora de Francês marca a presença brasileira na competição e representa a quarta longa-metragem de Ricardo Alves Jr., cineasta, argumentista, produtor e encenador nascido em Belo Horizonte, em 1982. Grace Passô interpreta Graça, uma professora particular de francês que vive na capital mineira com a namorada francesa. Uma emergência médica envolvendo o pai obriga-a a regressar à casa da infância, num bairro periférico, onde uma família vizinha, ligada a uma congregação religiosa local, lhe oferece apoio. O gesto inicialmente acolhedor transforma-se numa tentativa de reintegrá-la num papel social que ela já não reconhece como seu, fazendo-a mergulhar num ambiente de intolerância e fanatismo. Entre o thriller psicológico, o drama familiar e a observação das violências exercidas em nome da fé, Alves Jr. constrói uma narrativa sobre identidade, pertença e perda de sanidade.
De regresso a San Sebastián depois de terem apresentado Selva / Jungle no WIP Latam, em 2023, os colombianos Juan Miguel Gelacio e Esteban Hoyos García levam a Horizontes Latinos Cinco años, cuatro meses / Five Years, Four Months, longa-metragem que teve a sua estreia no Festival de Karlovy Vary. A história parte do desaparecimento de um filho durante o conflito armado colombiano e acompanha Martha, uma mãe que recebe a notícia de que não foi encontrado qualquer vestígio ósseo compatível com o rapaz numa nova exumação. Depois de esgotar as possibilidades institucionais de procura, aproxima-se de um grupo de mulheres e ouve de Sandra um rumor sobre uma aldeia remota onde seria possível pedir um favor aos mortos. As duas partem então numa viagem movida pela esperança, pela dor e pela necessidade de encontrar respostas. O projeto, anteriormente intitulado A la hora de poner la mesa ya no éramos cinco / We Were No Longer Five, recebeu o EGEDA Platino Industry Award de Melhor WIP Latam em 2025.
El tren fluvial / The River Train assinala a estreia de Lorenzo Ferro atrás das câmaras em San Sebastián, numa realização partilhada com Lucas A. Vignale, recentemente falecido. O filme acompanha Milo, um rapaz de nove anos que vive numa aldeia remota da Argentina e treina para se tornar bailarino de malambo, mas alimenta um sonho muito diferente: viajar de comboio até Buenos Aires, cidade que conhece apenas através dos filmes. A fantasia de escapar ao pequeno mundo em que nasceu transforma-se numa aventura de descoberta e num rito de passagem, à medida que o rapaz procura a coragem necessária para embarcar numa nova vida. Ferro é conhecido do festival enquanto ator, tendo participado em El Ángel / The Angel, Simón de la montaña / Simon of the Mountain e Cómo ser Pehuén Pedre / How to Be Pehuén Pedre. Para Vignale, produtor ligado sobretudo à indústria musical e colaborador de artistas como Bizarrap, Nicki Nicole e Nathy Peluso, o filme prolonga uma trajetória que também passou pelo documentário Tripolar 360 (2024) e por várias obras de curta e média-metragem.
A fotógrafa Alessandra Sanguinetti estreia-se no cinema com La ilusión de un verano sin fin / The Illusion of an Everlasting Summer, documentário apresentado na secção Cineasti del Presente do Festival de Locarno. O projeto nasce de uma experiência iniciada em 1999, quando Sanguinetti convidou duas vizinhas de nove anos, Guillermina e Belinda, a partilharem as suas fantasias e brincadeiras. O que começou como uma experiência fotográfica transformou-se numa colaboração de décadas, acompanhando as duas mulheres da infância à adolescência e, posteriormente, à vida adulta, ao trabalho e à maternidade. Filmado ao longo de 25 anos, o documentário observa o modo como os sonhos infantis são progressivamente atravessados pelas exigências da realidade e pelos caminhos divergentes que cada uma toma. A Argentina rural torna-se, assim, um espaço de memória e transformação, visto a partir de uma perspetiva feminina que contraria a mitologia predominantemente masculina associada aos Pampas.

Depois de ter aberto Horizontes Latinos em 2025 com a estreia mundial de Limpia, a chilena Dominga Sotomayor regressa à secção com La Perra, filme distinguido com um Palm Dog na Quinzaine des Cinéastes de Cannes. Livre adaptação do romance homónimo de Pilar Quintana, a obra acompanha Silvia, uma mulher que vive com o companheiro numa ilha remota da costa chilena, onde trabalha na apanha de algas. A chegada de Yuri, um cachorro abandonado que decide adotar, introduz uma inesperada sensação de ternura e felicidade na sua rotina e desperta um desejo de maternidade há muito reprimido. Quando o animal desaparece subitamente, porém, o episódio reabre uma ferida da infância que Silvia julgava encerrada. Sotomayor, autora de De jueves a domingo e Tarde para morir joven, transforma a relação entre mulher e animal num caminho para falar de luto, maternidade, trauma e memória.
Também em estreia na ficção, o diretor de fotografia e produtor mexicano Bruno Santamaría Razo apresenta Seis meses en el edificio rosa con azul / Six Months in a Pink & Blue Building, longa-metragem exibida na Semaine de la Critique de Cannes. Situado na Cidade do México do início da década de 1990, o filme acompanha Bruno no dia em que completa 11 anos e percebe que está apaixonado pelo seu melhor amigo, Vladimir. Na mesma noite, o pai recebe um diagnóstico positivo para VIH, acontecimento que altera profundamente a dinâmica familiar e obriga todos a lidar com uma doença ainda cercada de medo e estigma. A família tenta sobreviver à dor através da música, das festas e de uma espécie de resistência quotidiana, enquanto o rapaz procura compreender sentimentos que ainda não sabe nomear. Três décadas depois, o próprio Bruno regressa às memórias daquele período através do cinema, revisitando aquilo que a criança não conseguia compreender.
Entre os títulos já anunciados anteriormente está Ceniza en la boca / Ashes, de Diego Luna, produção mexicana e espanhola que acompanha Lucila e o irmão Diego na tentativa de começar uma nova vida em Madrid. Os dois deixam o México para se juntarem à mãe, que trabalha ilegalmente em Espanha há oito anos e sacrificou a própria vida para sustentar os filhos à distância. A chegada à Europa, porém, não corresponde à promessa de prosperidade imaginada pela família, revelando uma realidade muito mais dura e marcada pela precariedade. O filme inscreve-se, assim, num território de migração, separação familiar e choque entre expectativas e sobrevivência, observando a experiência de quem atravessa uma fronteira em busca de uma vida melhor. A presença de Luna reforça a dimensão internacional de uma Horizontes Latinos que, mais uma vez, aproxima diferentes geografias da experiência latino-americana.
A realizadora espanhola Fernanda Tovar leva à secção Chicas tristes / Sad Girlz, produção mexicana, espanhola e francesa que nasceu no WIP Latam de 2025 e que anteriormente havia passado pelo Proyecta, em 2022. La Maestra e Paula são as melhores nadadoras da sua equipa e também amigas inseparáveis, até que um incidente ocorrido numa festa altera radicalmente a relação entre ambas. La Maestra, impulsiva e determinada, percebe que algo mudou na amiga e que Paula passou a carregar uma tristeza que não consegue esconder. Quando a verdade sobre o que aconteceu vem à tona, as duas confrontam posições inconciliáveis: Paula quer manter o silêncio, enquanto La Maestra exige vingança. A amizade que parecia indestrutível é então submetida a uma prova extrema, num filme que articula intimidade adolescente, violência, lealdade e a necessidade de decidir entre calar e confrontar.
Já El deshielo / The Meltdown, de Manuela Martelli, leva a competição para o Chile de 1992. Durante uma estadia no hotel dos avós, situado numa região montanhosa, Inés conhece Hanna, uma jovem esquiadora alemã que passa por ali durante as férias. A aproximação entre as duas é interrompida quando Hanna desaparece sem deixar rasto, desencadeando uma procura que rapidamente ultrapassa a dimensão de um simples desaparecimento. À medida que Inés tenta descobrir o que aconteceu, segredos escondidos começam a emergir e a imagem aparentemente tranquila daquele espaço familiar perde consistência. Depois de se afirmar como realizadora com 1976, Martelli regressa à ficção com uma narrativa de mistério e memória, construída sobre o contraste entre a paisagem de montanha e aquilo que os adultos preferem manter oculto.

O mexicano Fernando Eimbcke, conhecido por um cinema atento aos pequenos acontecimentos capazes de transformar vidas aparentemente banais, concorre com Moscas / Flies, produção mexicana e espanhola que passou pelo WIP Latam em 2025. Depois de sofrer uma perda terrível, Olga escolhe viver isolada e evitar qualquer aproximação que possa perturbar a sua rotina. A falta de dinheiro para pagar uma operação ao dedo do pé, contudo, obriga-a a alugar um quarto do apartamento onde vive a Tulio, marido de uma paciente internada no hospital situado em frente ao enorme edifício. Quando Tulio precisa de se ausentar por alguns dias, deixa no seu lugar o filho Christian, alterando a equação daquela convivência. O encontro entre Olga e o rapaz abre espaço para uma relação inesperada, através da qual Eimbcke volta a explorar as zonas de afeto, solidão e estranheza que atravessam as relações humanas.

A lista encerra-se com Narciso, de Marcelo Martinessi, escolhido como filme de encerramento de Horizontes Latinos, e com uma história de morte, desejo e repressão situada no Paraguai de 1959. Sob o peso sufocante de uma ditadura militar, Narciso regressa de Buenos Aires trazendo consigo o rock and roll, um carisma irresistível e uma imagem que o transforma rapidamente numa sensação radiofónica. Desejado por homens e mulheres, converte-se também num símbolo de liberdade num país submetido ao silêncio e ao medo. Depois da sua última atuação, porém, é encontrado morto, e a investigação sobre o crime confronta uma sociedade habituada a esconder aquilo que ameaça a ordem estabelecida. Produzido por Paraguai, Espanha, Uruguai, Brasil, Portugal, Alemanha e França, o projeto passou pelo Europe-Latin America Co-Production Forum em 2020 e fecha uma seleção marcada precisamente pelo cruzamento entre memória, identidade, violência e resistência.
Os 12 títulos disputarão o Prémio Horizontes Make & Mark, dotado de 35 mil euros para o produtor maioritário e o distribuidor espanhol do filme vencedor. Sete das obras — Narciso, Chicas tristes, El deshielo, Cinco años, cuatro meses, El tren fluvial, Siempre soy tu animal materno e La ilusión de un verano sin fin— terão ainda direito a disputar o Prémio DAMA Youth. A distinção será atribuída por um júri composto por 150 estudantes com idades entre os 18 e os 25 anos, acrescentando uma segunda camada de avaliação a uma competição que, em San Sebastián, funciona há décadas como uma das principais portas de entrada do cinema latino-americano no circuito europeu. Entre estreias mundiais, descobertas de novos realizadores e obras já consagradas em Cannes, Berlim, Locarno e Karlovy Vary, Horizontes Latinos volta a fazer da geografia latino-americana um território privilegiado de invenção cinematográfica.

