“Os Miseráveis: A História de Jean Valjean” – Éric Besnard contra “a tentação reacionária” do presente

O realizador francês reencontra Grégory Gadebois para regressar às primeiras páginas de Os Miseráveis, num filme sobre a criação moral de Jean Valjean, o humanismo de Victor Hugo, a tentação reacionária do presente e uma estética pensada entre o preto e branco, o western e o filme bíblico.

Nos últimos anos, o realizador francês Éric Besnard parece ter encontrado uma linha definida em torno da história, da transmissão e daquilo a que o próprio chama o “ADN francês”: em Délicieux, visitou a Revolução Francesa e a invenção do restaurante; em Louise Violet, olhou para a escola no século XIX e para o novo sistema escolar republicano, gratuito, obrigatório e laico; e agora, com Os Miseráveis: A História de Jean Valjean, regressa ao humanismo de Victor Hugo, sem adaptar diretamente a obra que o tornou uma referência da literatura francesa.

Éric Besnard

Pensei que as primeiras 80 páginas de Os Miseráveis ofereciam uma espécie de história fechada: a transformação de um homem”, disse o cineasta ao C7nema, numa conversa com jornalistas portugueses em Paris, no início do ano. “Esta é a história da criação do maior herói da literatura francesa. Mas, para o ser, foi preciso que alguém lhe estendesse a mão.” E quem estendeu a mão a Jean Valjean, um homem acabado de sair da prisão, com uma descrença aparentemente total no mundo e nas pessoas que nele habitam, foi o bispo Myriel, também apelidado de Monsenhor Bienvenu.

Reconhecendo a dimensão política do filme e o seu fascínio pela cultura francesa, Éric lembra que essa herança assenta tanto no humanismo cristão como no humanismo ateu do século XIX. É daí, defende, que nasce uma ideia de atenção ao outro e de responsabilidade coletiva, capaz de contrariar “o liberalismo desenfreado do indivíduo”.

Queria prestar homenagem a Victor Hugo, ao seu pensamento, ao seu verbo e à forma de se exprimir nos diálogos”, conta o realizador, acrescentando que o autor, tal como Dickens em Inglaterra, foi um dos primeiros a falar do povo para o povo. “Os seus livros eram lidos por operários. Isso não acontece da mesma forma com Stendhal, Flaubert ou Balzac. Hugo conseguiu isso, e é absolutamente mágico.”

Crente no universalismo e no humanismo, Éric quer defender com Os Miseráveis: A História de Jean Valjean a ideia de um homem que parece ser um condenado perigoso, até aos seus próprios olhos, mas a quem se pode mostrar que é outra coisa. “Ele vai tornar-se o símbolo da bondade. (…) Quando me pergunta sobre Jean Valjean, respondo que o que me interessa é Victor Hugo. Quem é este homem que, há 200 anos, combatia a pena de morte, combatia as condições prisionais, combatia pela Europa? (…) Olho à minha volta e vejo que é preciso lembrar estas coisas. Em França, houve um ministro do Interior que propôs recriar uma instituição penal na Guiana. Eu fiz um filme na Guiana, sei o que era o degredo lá. É preciso ser louco para dizer uma coisa dessas. É como dizer que se vai restaurar a pena de morte. Existe uma tentação reacionária.

Grégory Gadebois e Bernard Campan em Os Miseráveis: A História de Jean Valjean

Grégory Gadebois

Depois de protagonizar Délicieux, Les Choses simples e Louise Violet, Grégory Gadebois volta a trabalhar com Éric Besnard, como Jean Valjean. “Quando escrevo, sei que Grégory estará no filme”, explica o realizador. “O que não sei é que papel vai fazer, porque ele podia fazer os dois: podia ser a bondade e podia ser o homem aspero como uma rocha. Hesitei sobre qual papel lhe dar e, a certa altura, decidi levá-lo para protagonista.

Estética

Queria fazer o filme a preto e branco. Disseram-me que não, porque os canais de televisão e os canais de cinema não querem preto e branco. Então pensei o filme como se fosse a preto e branco, mas em cor. Reduzi a gama cromática e isso levou-me à ideia de que as cores só reapareceriam no fim, quando ele se torna Jean Valjean. A partir do momento em que reduzia a cor e fazia sobressair os pretos e os brancos, surgiu a ideia da prisão com pequenas figuras vermelhas sobre o branco. Queria também um filme muito sombrio, porque a personagem é sombria, porque estamos na culpabilidade, no encontro com o cristianismo. E queria que o perigo da prisão fosse, pelo contrário, todo branco. Também aí há uma questão de aparência: não é apenas o preto que é perigoso, o branco também pode ser. Foi daí que nasceu esse grafismo forte.

Depois, é um filme em scope, o que permite grandes planos fechados e grandes planos abertos, quase como num western. Havia essa dupla ideia: uma gramática de western e uma gama de cores restringida para poder abri-la no final.

Hoje também é possível iluminar realmente à vela. Stanley Kubrick fez isso em Barry Lyndon, e teve muito mérito, porque era complicado. Hoje é mais fácil. Há muitas cenas no filme iluminadas apenas por velas.

Grégory Gadebois em Os Miseráveis: A História de Jean Valjean

Local das filmagens

O Luberon, perto de Avignon, é uma região muito conhecida pelos turistas. No verão, é a região da lavanda, dos frutos, do calor, das cigarras. É essa imagem que toda a gente conhece. Eu queria um filme bíblico. Queria oliveiras, caminhos de pedra, pedra branca, culpabilidade. Queria Barrabás. Nas minhas pesquisas, lembrava-me de que, naquela zona, o inverno era duro. Fui ver e não fiquei desiludido: com o frio, com a pedra, aquilo torna-se muito duro. Não temos o hábito de ver o Luberon assim. Isso agradou-me.”

A melhor versão cinematográfica de Os Miseráveis

A de 1934, com Harry Baur. Ele é um ator estratosférico. Há sequências em que parece Fritz Lang, de tão bem filmadas que são. Há momentos de uma beleza incrível. Muito claramente, é essa a minha versão preferida.

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