Numa entrevista ao Festival de Cinema Laceno D’Oro, o antropólogo e cineasta Lo Thivolle (La Petite Mort, L’Amour Fou e The Red Room) descreve o cinema que lhe atrai como aquele onde as fragilidades formais e estéticas permitem contar a relação sensível das suas personagens nas margens com um mundo cheio de dúvidas e questionamentos. E se olharmos para a programação da competição internacional deste pequeno (grande) certame italiano que se desenrola em Avellino, Itália, encontramos – um pouco por todo o lado – as tais fragilidades transformadas em atos de resiliência e demandas pessoais ou coletivas como afirmações identitárias. Assim é em “Savana e a Montanha”, “5 Anni e un’estate”, “The Cats of Gokogu“ ou este “Le Boxeur chancelant”, encontrando o espectador gestos humanos de resiliência em áreas marginalizadas, onde personagens periféricas – normalmente invisibilizadas – são sublinhadas nos seus atos de sobrevivência ao dia a dia.

Filmado na região portuária e industrial de Port-de-Bouc, na região marselhesa, “Le Boxeur chancelant” acompanha o próprio realizador, Lo, de cinquenta anos, que sonha fazer boxe e fazer um filme sobre boxe e que se inscreve numa academia a localidade onde é ensinado por Dany, um treinador com uma doença degenerativa cuja maior ambição é encontrar o amor, como vemos logo numa das primeiras cenas deste pequeno filme.

Transformando as tais fragilidades formais e estéticas em virtudes na captura da condição humana de duas personagens em busca de algo que parece inalcançável, o que se segue no filme são interações das duas figuras entre si, mas também com familiares, ou outras figuras que povoam a localidade, desemaranhando complexidades psicológicas por trás dos seus atos e ambições de superação quotidianas. Por isso mesmo, Lo – numa conversa com a mãe sobre o boxe explica que, além de uma ligação à classe trabalhadora que o atrai, vê a sua entrada nesse mundo como um ato de superação, enquanto Dany vê nas decisões do cineasta uma forma de afirmação pessoal onde, na busca da sua identidade, ele colide, rebeldemente e repetidamente, contra aos valores que os pais de Lo lhe transmitiram e os meios que lhe proporcionaram para “facilitar” a sua passagem pela vida. Já Dany, com tantas fragilidades emocionais como físicas, fala de como o amor é um assunto bem mais complicado que o boxe e que o desejo de ter tudo no imediato complicou as suas relações e, consequentemente, a vida.

No meio de tudo, Port-de-Bouc vai bem além do estatuto de “pano de fundo” e assume igualmente o protagonismo neste filme. Com as suas paisagens costeiras naturais invadidas por construções industriais brutas que a afastam dos conceitos de beleza e de ambiente saudável, existe de certa maneira uma forma de mostrar um local nas margens da paisagem tradicional (há momentos em que parece que fomos levados à Norilsk de François-Xavier Destors), onde entre o natural e o artificial, o orgânico e o construído, um conjunto de vidas que parecem caminhar pelas sombras do protagonismo na vida ganham um raio de luz com tanto de poético como de cru.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
le-boxeur-chancelant-uma-luz-nas-sombrasExiste de certa maneira uma forma de mostrar um local nas margens da paisagem tradicional, onde entre o natural e o artificial, o orgânico e o construído, um conjunto de vidas que parecem caminhar pelas sombras do protagonismo na vida ganham um raio de luz com tanto de poético como de cru.