Olhando novamente para Ushimado, uma cidade portuária na costa do sul do Japão, que já tinha estado no centro de “Kaki kôba” (2016) e “Minatomachi” (2018), o japonês Kazuhiro Sôda concretiza os seu 10º registo observacional (assim diz nos créditos), um trabalho doce e curioso que parte do Santuário Gokogu, no topo de uma grande colina com vista para o porto, onde dezenas de gatos habitam, para fazer uma análise sociológica e política de um espaço com 8.000 moradores humanos que viu a presença felina transformar o local e as pessoas.
Nem todos são fãs dos gatos ali presentes como uma mulher que visita frequentemente o local para encontrar paz e discernimento, como demonstra um octogenário que se queixa das fezes dos bichos, que estão espalhadas por todo o solo, mas a verdade é que a presença dos animais moldou a cidade à sua presença e transformou o local num espaço de romaria turística, ao ponto de se discutir nas reuniões do poder local o futuro (ou falta dele) dos bichos.
A verdade é que uma campanha de esterilização dos animais está em prática e a colónia de gatos tem diminuído, estimando-se que no futuro os animais acabem por deixar de marcar presença no local, deixando alguns cidadãos consternados e outros agradecidos.
E partindo dos gatos, conhecemos também muitos dos residentes, a maioria idosos que vagueiam pelo espaço ou fazem do porto a sua zona de pesca, mas também acedemos a miúdos que andam na escola primária e adolescentes, como aquela jovem que entrevista Kazuhiro Sôda para um trabalho escolar de verão, descobrindo que este tornou-se realizador porque, quando acabou os estudos, não sabia bem o que fazer. “É bom transformar um hobby num emprego”, diz um octogenário numa conversa com o cineasta, que tanto se aproxima dos animais e das pessoas, mantendo sempre uma certa distância. Distância essa que se esbate um pouco quando um dos gatos que teima entrar pela sua casa a dentro, para se refugiar das chuvas.
No final, Kazuhiro Sôda faz um novo retrato de um espaço, Ushimado, onde gestos de gentileza e benevolência se amontoam, quer para o bem estar animal, quer humano. E nisto fica uma radiografia doce de uma convivência curiosa; de um não lugar que se transformou em lugar antropológico para os animais, a maioria abandonados por alguns que os visitam e não os podem ter nos seus minúsculos apartamentos citadinos.


















