Herança da definição aplicada pelo crítico de arte alemão Franz Roh para descrever uma pintura que demonstrava uma realidade alterada, o “realismo mágico” chegou à literatura no final dos anos 1940 através do escritor venezuelano Arturo Uslar Pietri. A América do Sul rendeu-se ao termo e estilo, usando-o frequentemente como forma de abordar questões políticas ou sociais, como Gabriel García Márquez o fez com bastante sucesso. Nos últimos anos, das mais diferentes paragens – deixo só 5 exemplos bem recentes, de diferentes continentes: “Bird”, “Banel & Adama”;”Earth Mamma”;”The Fable”;”La Hija de Toda la Rabia” -, o “realismo mágico” tem conquistado um lugar central na fabulação de histórias modernas no cinema e “Tarika”, o terceiro filme do realizador búlgaro Milko Lazarov, segue essa linhagem, contando a história de um pai e de uma filha que vivem isolados numa pequena localidade e são vítimas da ostracização por parte das gentes da sua aldeia.
Lazarov cria um microcosmos peculiar nesta sua obra estreada no BFI London Film Festival, exibido no Festival do Cairo e agora no Bergamo Film Meeting, colocando Ali (Zachary Baharov) e a sua filha adolescente, Tarika (Vesela Valcheva), no centro de um turbilhão onde uma anomalia óssea na jovem, a que chamam de “asas de borboleta”, herdada da mãe e da avó, levanta uma série de superstições num povo sempre assustado com o “diferente” e com o “místico”, acreditando que ela é a causa da morte dos seus animais e que traz azar à comunidade.
E esse medo não é apenas materializado em observações semânticas, mas mesmo na construção de um muro de arame farpado que “afaste quem ameace os cidadãos da aldeia”, como diz o presidente da câmara com o típico palavreado da extrema direita bacoca, onde o proteger as suas gentes de tudo o que for “estrangeiro” é o mote.
Construído através de múltiplos planos fixos que ora destacam a figura da pequena Tarika, ora expandem-se em toda a amplitude para a mostrar uma paisagem avassaladora, num trabalho verdadeiramente marcante em cada frame pelo diretor de fotografia Kaloyan Bozhilo, Milko Lazarov observa a humanidade no sentido individual, mas igualmente num coletivo, criando o que facilmente chamamos de conto de fadas moderno que responde a um problema que nenhum país, atualmente, consegue escapar, seja dominado pela mais básica ditadura, seja entregue à democracia liberal: o medo do que vem de fora, visto como uma ameaça e uma maldição, ainda que se afastem do racismo tradicional (da velha e já bem destruída cientificamente perspectiva biológica), mas sob os desígnios do que chamam um culturalismo (racista), em que de fora vêm pessoas de diferentes matriz civilizacional, incapazes da assimilação. Balelas com um novo palavreado.
O resultado final deste “Tarika” é um objeto que nunca se rende na beleza estética e poética que nos entrega, nem à mensagem que tenta transmitir, ou mesmo ao exercício derivativo de “realismo mágico“. Na verdade, estamos perante um organismo cinemático com vida e mitologia própria, incapaz de nos deixar indiferentes.



















