As lixeiras a céu aberto, em toda a sua monstruosidade e toxicidade, maiores que os montes naturais, mas paradoxalmente tratadas pelos realizadores com requintes de “beleza cinematográfica”, têm sido espaços fortemente requisitados este ano. Vimos isso em Locarno no documentário “Matter out of Place”, onde essas lixeiras eram (normalmente) o destino final de tudo o que de artificial o homem produz, e viu-se isso em Veneza no curioso “Hanging Gardens”, que nos levava aos arrabaldes de Bagdade, onde um rapaz descobre uma boneca sexual, a partir do qual monta um negócio.

É também uma enorme lixeira a primeira imagem que temos da Nicarágua nesta primeira longa-metragem de Laura Baumeister, da qual vão surgir, por entre uma névoa de pó, várias crianças, incluindo Maria, a jovem protagonista de 11 anos que vive com a Mãe, Lilibeth, numa barraca junto à praia, onde ganham a vida a vender cães bebés de raças selectas.

Baumeister, que se inspirou nas crianças que conheceu enquanto trabalhava como professora, é a primeira mulher da Nicarágua a assinar uma longa-metragem e o seu “La Hija de todas las Rabias” viaja espiritualmente entre o coming-of-age com os tiques do realismo mágico (que o evocam, mas não o são), ao muito comum miserabilismo por paisagens centro e sul-americanas, que podemos até ligar à famosa porno-miséria que Luis Ospina e Carlos Mayolo falaram no final dos anos 70.

Sem nunca ser um objeto emocionalmente exploratório, passando diversas vezes nas entrelinhas uma mensagem social, na forma da orfandade como um meio de chegar à idade adulta rapidamente, e ambiental, através da disposição da relação do homem com animais e natureza, expressa no contraste gritante entre beleza natural e resquícios amontoados da presença humana, “La Hija de todas las Rabias” é claramente esculpido com tanta ternura como profissionalismo (na imagem, no som, na montagem) em torno do conceito de quebra na relação entre mãe e filha, cuja conexão já era fragilizada. E tudo num país ainda a tentar encontrar um caminho entre os desígnios capitalistas, um passado ditatorial avassalador, e ideias sandinistas ainda bem embutidas, tudo materializado numa pobreza generalizada, onde o ato de queimar serve tanto como ruptura com o passado, como de forma de renascimento.

E tal como a Nicarágua, esse ato de ruptura figurativa da ligação mãe-filha predestina a pequena Maria a um renascer, o qual começa na sua imaginação fértil através de uma entidade parte mulher, parte felina que a visita e ajuda na transição.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
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