O estilo realista de Andrea Arnold – que nos deu filmes como “Red Road” e “Fish Tank” (melhor filme do ano para o C7nema em 2009) – tornou-se não só uma marca de renovação do chamado kitchen sink drama, que ganhou adeptos a partir da década de 1950 no Reino Unido, mas dela própria. E em “Bird”, em competição à Palma de Ouro no Festival de Cannes, a britânica volta a ele com toda a força e relevância social, mas igualmente no que toca ao trabalho estético, onde os tremores de uma câmara, que persegue exaustivamente a nossa protagonista, associados a uma direção de fotografia repleta de cores frias granuladas, prometem nos levar para a sua área de conforto, com o seu quê de Charles Dickens moderno.
No filme seguimos Bailey (Nykiya Adams), uma menina de 12 anos que lida com uma família fragmentada e que tem de lidar com um complexo de rejeição permanente. Ela vive num apartamento degradado com o seu irmão mais velho, Hunter (Jason Edward Buda), e o pai, Bug (Barry Koeghan), que entretanto tem uma nova namorada com quem se quer casar. A noção de disfuncionalidade familiar ganha com “Bird” uma nova camada problemática, tal a precariedade das condições físicas do local onde habita, mas principalmente no seu relacionamento com quem a rodeia.
Embora a tendência – cliché – destas representações da falência social levarem a maioria dos argumentistas7cineastas a conduzirem os seus peões ao banditismo, por estas bandas o que existe é um enlevar do vigilantismo, materializado num gangue que castiga brutalmente todos aqueles que entendem serem maus. É uma inflexão curiosa, em relação ao que estamos habituados a ver, mas essa é apenas a primeira surpresa que Arnold nos reserva. A outra é o surgimento em cena de Franz Rogowski no papel que dá título ao filme, ou seja, Bird. De saiote e sem medo de rebolar ou se posicionar dias e dias no topo de um edifício, Bird é um mistério para a pequena. E apesar do comportamento descomplexado e amigável deste, Bailey mantém – inicialmente – as portas fechadas a qualquer amizade séria, tal o medo da maldita rejeição e sentimento de abandono. Ainda assim, intrigada pela figura atípica, ela começa a perseguir o homem descobrindo que este procura a família que vivia ali na região no passado.
Entre os dois nasce uma relação de cumplicidade peculiar, que derradeiramente vai fluir numa passagem do típico realismo de Arnold para o realismo mágico que se desenvolveu fortemente nas décadas de 1960 e 1970 na América Latina e tem conquistado adeptos em várias formas de arte, da literatura ao cinema. É (mais uma) agradável surpresa, juntamente com a descoberta de mais uma “atriz” desconhecida, Nykiya Adams. A jovem, que procura aceitação um pouco por todo o lado – pai, mãe, Bird ou no gangue – é a força motriz do filme de Arnold, sendo acompanhada por Franz Rogowski e Barry Koeghan com precisão, extravagância e humor.
Por isso mesmo, e sem impressionar, “Bird” acaba por devolver à cineasta um regresso aos temas e formas que a celebrizaram, deixando esta novamente uma crítica social e um olhar sobre os marginalizados que nunca é demais repetir.




















