“O que significa estar vivo?” Um dia acordas e percebes que a tua vida está a acabar. Viver e morrer são estados eminentemente próximos, por mais que não queiramos. A vida segue sem nós, depois de partirmos da Terra. Quando não mais vivermos, para onde vai o amor que sentimos pelas pessoas? Ama-se alguém e, a qualquer momento, já não se ama. O amor chega e parte. Porque amamos as pessoas e porque deixamos de as amar?
Estas são reflexões levantadas pelas personagens da história de Três Vezes Adeus (2025), um belíssimo e sensível filme autoral sobre relações humanas, muito bem realizado por Isabel Coixet (1960-), experiente, aclamada e inspiradora realizadora catalã-espanhola. É um filme cujo argumento ela divide com o italiano Enrico Audenino (1981-).
É uma ficção inspirada em três contos escolhidos do livro póstumo Tre Ciotole (edição em Portugal com o título O Sentido da Náusea), de 2023, da escritora italiana Michela Murgia (1972-2023). Uma narrativa autobiográfica sobre os últimos anos da vida da escritora. Obra escrita durante o período da Covid. Murgia faleceu de cancro antes de o livro ser publicado e, em vida, expôs publicamente, de forma crua, natural, a descoberta da doença, tendo antes sofrido um rompimento amoroso. Através dos contos do livro, a autora narra a sua fragilidade e dor, o dilema de desejar continuar a viver, mas saber que está a morrer.
Assim como na narrativa literária, o filme de Coixet entrelaça acontecimentos da vida de pessoas que estão a passar por transformações profundas e bruscas. Marta, uma professora de educação física (vivida pela excelente atriz italiana Alba Rohrwacher, 1979-), e António — chef de cozinha do seu próprio restaurante (interpretado pelo destacado ator italiano Elio Germano, 1980-) — estão em crise no casamento.
António um dia acorda e acha que não ama mais Marta, decide sair de casa, mesmo que depois venha a arrepender-se. Chega ao fim uma relação de amor que se perdeu no descuido quotidiano, restando as feridas por cicatrizar. Não há vitimização entre eles, procurando tentar entender o momento que atravessam e seguir em frente. A rutura emocional e amorosa leva-os a rever como se amaram, como vivem dentro e fora do espaço familiar, e como lidar com o tempo incessante e transformador da vida, para o bem e para o mal.
Logo depois do fim da relação amorosa, Marta descobre ter um cancro terminal e vai aprender sozinha e sem lamentos, entre as paredes de casa, a cuidar de si, a conviver com o sofrimento e o fim da vida, que se aproxima. No início, ela externa o sofrimento de forma solitária, mas, aos poucos, vai lidando de modo menos traumático com a mudança drástica da sua vida, que se esvai diante da morte iminente.
A vida e a morte são dois polos opostos que nos chocam, pelo menos a mim. Temo a morte por gostar muito de viver e, por isso, tento viver intensamente.
Três Vezes Adeus (2025) foi rodado em Roma, cidade onde vivia a autora do livro que inspirou a obra cinematográfica. Roma foi filmada por realizadores do mundo inteiro, mas a Roma que vemos no filme de Coixet é íntima, quotidiana. Vemos os espaços comuns dos habitantes, uma Roma que só eles conhecem, a história diária da cidade e o modo de vida de quem nela habita.
Uma Roma coerente com a história de Murgia, relata Coixet numa conversa depois da exibição do filme, no dia 14 de junho, no Cinema Fernando Lopes, em Lisboa. Filmar a cidade de forma intimista era a sua maior preocupação quando decidiu recriar no cinema os contos da escritora.
Filmado em 35 mm, a câmara de Três Vezes Adeus (2025) volta-se cuidadosamente para os refúgios afetivos, lugares, gestos e objetos do quotidiano das personagens. Há alguns planos gerais e lentos do fluxo da cidade, mas predominam e captam a atenção do espectador os planos mais próximos das protagonistas e dos espaços da cidade que marcaram as suas vidas, como o bairro Trastevere, o Cinema Sacher, o Restaurante Suppli Roma, etc.
Por sua vez, a banda sonora do filme, igualmente intimista, cria dramaticidade e expressa os sentimentos das personagens, seja nos versos de Bem Leve, de Marisa Monte, na voz da italiana Fiorella Vanoni, ou em I Get Along Without You Very Well, de Nina Simone. Segundo Coixet, além do cinema, a música é algo que gosta muito.
A realizadora considera que é fácil extrair a intimidade dos atores que vivem as personagens que ela constrói, devido aos muitos anos de experiência a fazer filmes. Além disso, as questões intimistas atraem-na e são uma temática central no seu cinema. Ela relata ainda que se coloca atrás da câmara, observa e tenta perceber do que gostam, o que sentem e como vivem os atores no dia a dia, de modo que possam expor no ecrã a intimidade das personagens que encarnam de forma natural e espontânea. Não por acaso, ela consegue levar-nos ao mundo interior das personagens como se fizéssemos parte da vida delas.
Três Vezes Adeus (2025) é um drama que aborda as relações humanas, os desejos, as fraturas, as incertezas, aquilo que nos deixa tristes ou alegres. A realizadora cria personagens fortes, entretanto dá a ver a inevitável vulnerabilidade humana em personagens que “se apoiam no amor como um bálsamo para curar as feridas existenciais e para dar-lhe algum sentido”.

Há uma ação que gostava de destacar na ficção de Coixet, uma ação sustentável do filme: os protagonistas deslocam-se em Roma, Marta de bicicleta e António de mota, numa Vespa. Contudo, não sei se foi uma decisão consciente da cineasta. Em geral, no meio cinematográfico ficcional, são poucos os/as realizadores/as que pensam em ações de sustentabilidade ambiental, algo que, na atualidade, é um ponto superpositivo na produção de um filme, uma vez que reduz a emissão de CO2e nas cidades, causando menos impacto nas mudanças climáticas. Estudos apontam que o setor de transporte, principalmente aviões e carros movidos por combustíveis fósseis, é responsável por cerca de um quarto das emissões globais de gases de efeito estufa.
Isabel Coixet fez cerca de quinze longas-metragens e já filmou em vários países. Com as locações a variarem de acordo com a narrativa, os seus cenários atravessam continentes. Como exemplo encontramos Um Amor (2023) filmado em Espanha, no ambiente rural de La Rioja; A Livraria (2017), vencedor do Prémio Goya, foi gravado na Irlanda do Norte (na vila costeira de Portaferry). As filmagens de Ninguém Deseja a Noite (2015) ocorreram em ambientes da Noruega, Bulgária e Espanha. Enquanto Mapa dos Sons de Tóquio (2009), como o título sugere, foi rodado em cenários reais do Japão, na capital Tóquio. E Minha Vida Sem Mim (2003), um dos seus trabalhos mais aclamados, foi filmado no Canadá, em Vancouver. Portanto, filmar em países que não sejam o seu não é um problema para Coixet.
Em 2023, ela recebeu o Prémio de Honra da Academia de Cinema Europeu pelo seu contributo para o cinema europeu. A sua produtora, Miss Wasabi Films, apoia projetos de novas realizadoras. Coixet, além de cineasta, tem um programa de música na rádio nacional espanhola intitulado Someone Should Ban Sunday Afternoons, mantém uma coluna semanal dedicada ao cinema documental, oferece masterclasses de cinema em universidades de prestígio internacional, entre outras ocupações. Curiosamente, não estudou cinema, formou-se em História e Língua Espanhola pela Universidade de Barcelona. Aprendeu cinema fazendo-o!
Três Vezes Adeus (2025) estreou em 2025 no Festival de Cinema de Toronto, esteve no ecrã da Festa do Cinema Italiano 2025, em Lisboa, marcou presença em vários festivais internacionais e está agora nas salas de cinema de Portugal. CORRA ATÉ À SALA MAIS PERTO DE SI!




















