Com 138 minutos de duração, “Silent City Driver”, de Sengedorj Janchivdorj, apresentou-se na competição principal do Tallinn Black Nights com um cunho fortemente estilizado, não apenas no seu arranjo estético, onde o diretor de fotografia Enkhbayar Enkhtur esmera-se num jogo de enquadramentos marcantes desde o primeiro plano, mas principalmente pela forma como o cineasta mongol, conhecido por “The Sales Girl” (2021), vai nos oferecendo camadas e camadas de personalidade para absorver em torno da sua personagem principal: Myagmar (Tuvshinbayar Amartuvshin), um homem de 32 anos que, depois de cumprir 14 anos de prisão pelo seu envolvimento num caso de homicídio, enfrenta a rejeição social e os desafios de saúde decorrentes de um espancamento na prisão, encontrando consolo apenas a cuidar de cães vadios, enquanto trabalha como condutor de um carro funerário.
Logo no primeiro plano do filme, quando Myagmar espera por um autocarro no meio de uma paisagem noturna fortemente iluminada artificialmente, temos a noção que vamos assistir a algo “exquisite” no reino dos homens solitários e silenciosos que parecem perdidos – em si e perante a própria sociedade. Por isso mesmo, talvez impulsionado pelo trabalho de Sengedorj Janchivdorj em criar uma figura ímpar que carrega nele violência, depressão e escuridão, Nicolas Winding Refn e o seu “Drive” vem à cabeça, mas também algum do cinema do cazaque Adil Khan Yerzhanov, e até mesmo Guan Hu e o seu recente “Black Dog”.
Conto de fadas sombrio e de busca de uma redenção mais pessoal que coletiva, “Silent City Driver” tem na atuação soturna de Tuvshinbayar Amartuvshin, sempre carregada de silêncios, sensações de vazio (propósito) e solidão, a grande mais valia. Sem a única pessoa com quem realmente tinha ligação, a mãe, Myagmar vai se reintegrando na sociedade funcionalmente através do trabalho de condutor de um carro funerário, enquanto faz esculturas em pedra de beleza inquestionável. Mas esses trabalhos não apagam as suas deficiências sociais, que ganham novo alento quando trava amizade com um jovem monge (Bat-Erdene Munkhbat) acabado de chegar do Tibete e, principalmente, se conecta com a bela Saruul (Narantsetseg Ganbaatar), uma “alma livre”, filha do dono da funerária em que trabalha, e que vai ser envolvida num jogo de chantagens com o dono de um hotel.
Será essa chantagem e os eventos que ocorrem derivados a isso que vão trazer à tona alguns dos impulsos que Myagmar carrega em si e que tenta contrariar, muitas vezes pedindo ao amigo monge para se tornar seu discípulo, ou tratando de um conjunto de cães vadios, que acalmam o seu interior em profunda ebulição.
Sengedorj Janchivdorj filma tudo sem medos de planos extensos – ora com câmaras fixas, ora móveis-, filmando em cima das suas personagens (ou nas costas), ou então apresentado planos de conjunto integradores. Com forte estilização visual, a música ganha aqui uma força artificial, especialmente quando o nosso condutor de carros funerários se deixa absorver num seu mundo interno ao som de “Comme Un Boomerang”, de Serge Gainsbourg, que toca umas cinco vezes durante as mais de duas horas do filme, algumas das quais sem qualquer potência para a história ou personagem.
Muitas vezes hipnótico, especialmente quando as paisagens urbanas e aéreas da Mongólia cruzam-se com a escuridão que o protagonista carrega em si, mas também muitas vezes redundante, “Silent City Driver” demonstra acima de tudo de personalidade, ainda que talvez tivesse mais força e impacto se tivesse uma melhor compactação – via montagem – de tudo o que quer ser e mostrar.




















