Em 2014, quando Xavier Dolan levou a Cannes “Mommy”, o seu primeiro filme na corrida à Palma de Ouro, houve um filme na Un Certain Regard que não só deu que falar como lançou para a ribalta um cineasta húngaro: Kornél Mundruczó. Com o nome “White God”, o filme mostrava uma revolução canina liderada por um rafeiro contra os outrora “melhores amigos”, ou seja, os homens.

Dez anos se passaram e Xavier Dolan regressou à Un Certain Regard, não com um filme, mas como presidente do júri. Na sua programação ele encontrou e premiou com a distinção mais elevada da secção um filme onde os cães voltam a reunir-se após o abandono e “traição humana”. Com o nome “Black Dog”, o filme do chinês Guan Hu tem as cores de um drama, o realismo social de uma sociedade chinesa em transformação profunda nas vésperas dos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008, e os códigos e as paisagens dos westerns, com bons, maus e vilões todos como joguetes de um estado que assalta os indícios de individualidade em nome do “bem comum”.

E é com um antigo criminoso, Lang (Eddie Peng), solto da cadeia recentemente, onde cumpriu uma pena por assassinato, que esta produção arranca. E arranca não com uma carruagem do velho oeste tombada, mas com um autocarro que o iria levar de volta a “casa” capotado à beira da estrada. No meio do caos do acidente, alguém reclama que lhe desapareceu dinheiro, o que leva a polícia a apontar baterias e interrogar o ex-condenado, agora em liberdade condicional. Essa é só a primeira vez das múltiplas abordagens que este homem vai sofrer durante o seu caminho de regresso à cidade onde cresceu, ganhou fama como membro de uma banda de música, e desempenhou um papel no assassinato do sobrinho de um gangster, Butcher Hu (Hu Ziaoguang), famoso por traficar de veneno de cobra.

O cenário que encontramos nessa cidade não é diferente daquelas do velho oeste onde se esgotaram os recursos, normalmente associados à mineração. A outrora vitalidade e corrupio laboral foi substituído pela permanência apenas dos mais velhos. Não há emprego, há edifícios devolutos marcados para demolição por todo o lado, e circulam cães abandonados que alegadamente começam a atacar as pessoas. Até os espaços culturais e o jardim zoológico local estão ao abandono, tendo o dono desta infraestrutura se livrado mesmo de alguns dos animais selvagens, como um lobo, porque não conseguia alimentá-lo. Resta agora um tigre, que não se sabe bem o que fazer. É nesta decadência latente, de um homem que regressa a um local irreconhecível, anos após a sua detenção, que os eventos de “Black Dog” se vão desenrolar, com Lang a arranjar o biscate, para pagar a dívida pela morte do traficante de veneno de cobra, de capturar os cães abandonados, mas também todos os não registados oficialmente, e que são inúmeros pois esse registo é caro para as pessoas comuns e pobres da região. Na verdade, a dita “limpeza canina” para o bem geral esconde um negócio obscuro, como progressivamente vamos descobrir. 

E tal como no velho oeste, os maiores vilões têm prémios mais elevados para os capturar. E no topo da lista não está um homem, mas um cão, o Black Dog que dá título ao filme. Este é um cão de raça cruzada com a aparência de um galgo que, logo quando Lang chegou à, causou-lhe problemas, resolvidos facilmente à dentada. Com uma recompensa na casa dos 1000 Yuan, ele é considerado o inimigo número 1 e o centro de todas as atenções das brigadas que andam pela cidade, mas que nunca o conseguiram capturar. À medida que Lang avança na sua tarefa, ele percebe que aquilo não é feito para ele, aproximando-se do temido cão e progressivamente tornando-se inseparável dele. Na verdade, este homem macerado pela vida encontra uma espécie de espelho do cão, oferecendo-lhe uma nova oportunidade e encontrando nele o mais próximo do conceito de “família”, lealdade e amor.

O sentimento de western em paisagens chinesas é ainda acentuado pelo trabalho da fotografia de Weizhe Gao (My People, My Country), que roda a obra em widescreen. Associado a personagens, eventos e paisagens, joga ainda a favor a banda-sonora de Breton Vivian, de “Yellowstone”, que forçosamente deixa a sua marca na tensão e sensação de imprevisibilidade de todo o filme. Encerrados nas montanhas, para se protegerem dos homens, os caninos são a força avassaladora de toda a obra. Uma força que numa das cenas finais ganha ainda uma maior dimensão e faz de “Black Dog” um dos filmes mais inesquecíveis da edição 2024 do Festival de Cannes.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
black-dog-era-uma-vez-na-chinaO filme do chinês Guan Hu tem as cores de um drama, o realismo social de uma sociedade chinesa em transformação profunda nas vésperas dos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, e os códigos e as paisagens dos westerns, com bons, maus e vilões todos como joguetes de um estado que assalta os indícios de individualidade em nome do “bem comum”.