A consagração de Roman Polanski como melhor realizador nos Césars continua a gerar polémica

Ainda antes de Adèle Haenel abandonar a cerimónia dos Césars, após a distinção concedida a Roman Polanski de melhor realizador, houve um outro momento de tensão durante a entrega dos prémios. Coube ao ator Jean-Pierre Darroussin a tarefa de anunciar o franco-polaco e Robert Harris como vencedores do prémio de melhor argumento adaptado. Foram poucas as palmas na sala, após o anúncio, e o próprio apresentador não disse o nome completo de Roman e soltou apenas: “Rom…onski e Robert Harris”.
Logo após esse momento, as redes sociais foram invadidas com palavras a favor e contra a atitude do ator em não dizer o nome do cineasta por inteiro, especulando-se a razão por trás da atitude. Ora, numa entrevista recente à revista Transfuge, Darroussin explicou a situação e como foi convidado para apresentar essa distinção: “Telefonaram-me para eu entregar um César. Fiquei um pouco surpreso, pois já fazia dez anos que eu não era chamado pela Academia dos César …Disseram-me que ninguém queria ir [apresentar o prémio], que todos estavam com medo … Eu disse a mim mesmo que não tinha nada a temer e aceitei o convite. A noite é hipertensa. Quando abro o envelope de Roman Polanski, digo para mim mesmo: ‘Oh, meu Deus, isto é mau’. E aí, idiotisse minha, instintivamente, acho que não consigo sair bem da situação e digo a mim mesmo que vou fazer a piada do sapo com a boca pequena. E fiz aquela boquinha [enquanto dizia o nome dele]. Na sala, as pessoas riram. Naquele momento, ninguém entendeu o significado que essa piada iria levar. Eu gozei comigo mesmo, queria mostrar a minha posição embaraçosa. Fui muito desajeitado. Nunca quis humilhar Roman Polanski, o homem pode não ter a consciência limpa, mas acho que ele é um génio do cinema, um filme como Tess é uma obra-prima “.
O ator vincou ainda na entrevista que se mostra “totalmente solidário com a luta das mulheres“: “Os violadores devem ser condenados, o mundo está a mudar e isso é muito saudável. Já não se pode ser um predador sexual sem estar preocupado e ser condenado por isso. O movimento #MeeToo é necessário. Mas tem que se mostrar elevação, não podemos misturar tudo. Linchamentos públicos são muito prejudiciais. ”
Um momento estranho, constragedor, mas não o único, pois minutos depois, Emmanuelle Bercot e Claire Denis anunciam Polanski como melhor realizador. Ouvem-se palmas, mas muitos presentes abandonam a sala. Adèle Haenel foi uma das primeiras a sair, a gesticular e a mostrar a sua indignação pela vitória do cineasta, como podem ver no vídeo abaixo. Céline Sciamma vinha imediatamente atrás da atriz.

