Scorsese explica os comentários que fez sobre filmes da Marvel

Há um mês atrás, numa entrevista à revista Empire, o realizador Martin Scorsese admitia que não via os filmes da Marvel e que para ele essas produções “não eram cinema”, mas sim “parques temáticos”. Agora, numa coluna escrita no New York Times, o cineasta aprofundou a questão, explicando as razões porque fez essas afirmações.
Scorsese explica que a cultura das franquias da Marvel não arrisca nada, tem uma ausência de verdadeiro mistério e de um perigo emocional genuíno. “Nada está em risco. As imagens são feitas para satisfazer um conjunto específico de demandas e são projetadas como variações num número finito de temas. Eles [os filmes] são sequelas no nome, mas remakes no espírito, e tudo neles é oficialmente sancionado porque não pode realmente ser de outra maneira. Essa é a natureza das franquias modernas de cinema: pesquisadas no mercado, testadas pelo público, avaliadas, modificadas, revestidas e remodeladas até estarem prontas para o consumo”.
Scorsese relembra que existe “entretenimento audiovisual” e “cinema“, que de vez em quando “eles se sobrepõem”, mas que isso está se está a tornar cada vez mais raro. “Temo que o domínio financeiro de um esteja a ser usado para marginalizar e até menosprezar a existência do outro“, diz o cineasta, que usa o exemplo de Paul Thomas Anderson, Claire Denis, Spike Lee, Ari Aster, Kathryn Bigelow e Wes Anderson como o oposto ao que os filmes da Marvel oferecem: “Quando assisto a um filme de qualquer um desses cineastas, sei que vou ver algo absolutamente novo e serei levado a áreas de experiência inesperadas e talvez até inomináveis.“
Assumindo que se fosse jovem hoje em dia provavelmente ficaria ansioso pelos filmes da Marvel e até desejaria filmar um, Scorsese relembra que ganhou o senso pelo cinema noutra era, na qual este era encarado como uma forma de arte. Pegando no exemplo de Hitchcock, que ao seu jeito desenvolveu uma espécie de franquia, Scorsese dá o exemplo de Psico e O Desconhecido do Norte-Expresso, que para ele podem ser chamados de “parques temáticos” e certamente “filmes-evento“, mas que setenta anos depois sobreviveram e que ainda maravilham os espectadores.
Já sobre o porquê de falar de forma tão incisiva dos filmes da Marvel nos tempos que correm, o realizador explica que cada vez há menos cinemas independentes e que os multiplexes preferem exibir essas franquias: “Se você vai dizer que é simplesmente uma questão de oferta e procura e de dar às pessoas o que elas querem, discordo. É uma questão da galinha e do ovo. Se as pessoas recebem apenas um tipo de coisa e se vendem sem parar essa coisa, é claro que elas vão querer mais do mesmo“.
Finalmente, e para ele, o streaming não é efetivamente um concorrente nesse domínio, pois a oferta destes não é nas salas de cinema, onde qualquer realizador – trabalhe para essas plataformas ou não – deseja ter a sua obra em exibição.

