Em 1998, Olivier Meyrou foi convidado por Pierre Bergé, o empresário francês, cofundador da marca Yves Saint Laurent (YSL), sócio e marido do estilista Yves Saint Laurent, para documentar o sucesso pessoal e profissional da dupla/marca.
Ao longo de três anos, Meyrou filmou momentos íntimos, episódios da vida quotidiana e profissional ,mas quando encontrou um distribuidor para o filme, Bergé não permitiu que o mesmo fosse visto, apesar de não ter visto a película nem fazer ideia de qual era o seu conteúdo.
Em 2015, dois anos antes da sua morte, Bergé deu finalmente permissão para a exibição do filme e agora, quase duas décadas após das filmagens e 11 anos após a morte de Saint-Laurent, Yves Saint-Laurent: The Last Collections será lançado em algumas salas de cinema (no Reino Unido estreia esta semana).
Apesar do boicote ao seu trabalho e daquela que foi uma “luta feia“, Meyrou não guarda rancor e explicou ao The Guardian: “quando (em 2005) lhe escrevi a dizer que tínhamos um distribuidor interessado, ele opôs-se completamente“. O filme apresenta imagens capturadas entre 1998 e 2001, na época em que Saint-Laurent, então com 60 anos, estava a tornar-se cada vez mais dependente de Bergé. Meyrou esclarece ainda: “Bergé era uma figura muito poderosa no sistema francês e era assustador para muitas pessoas. Fiquei dececionado, mas não queria lutar contra eles para divulgar o trabalho. Essa não era a filosofia do filme.”
Quando Bergé finalmente viu o filme, num cinema alugado especialmente para uma exibição privada, “amuou”, disse Meyrou, esclarecendo: “fingiu que nunca fiz um filme com eles, que aquilo que tinha feito era apenas para meus arquivos pessoais. Foi uma luta feia, porque é muito fácil controlar alguém que é mais fraco do que você.“
A relação e o controle de Bergé sob Saint-Laurent é o tema central do filme, mas é retratado de forma delicada. Enquanto a maior parte da vida quotidiana de Saint-Laurent parece ser gerenciada por Bergé, numa cena em que o estilista insiste que um modelo específico vista um vestido exclusivo para um desfile, o sócio/marido refaz a programação para que isso aconteça. Meyrou diz que este tipo de respeito foi o elemento mais importante a transmitir. “Na verdade, é por isso que eu gosto dele hoje. Bergé tinha um ego muito grande, mas por 40 anos aceitou que estava nos bastidores da YSL e acho que isso é amor. É bonito.”
Vinte anos depois de filmado, Meyrou acredita que Yves Saint-Laurent: The Last Collections passou por uma metamorfose. “Quando tivemos que restaurar o filme, foi uma sensação estranha. Fiz um documentário (na época) contemporâneo, mas agora é mais um testemunho de uma época que não existe mais. Não foi isto que filmei e levei algum tempo para entender este facto“.

