Onze associações e mais de oitocentas personalidades do mundo do cinema independente francês (90% da produção) mostraram-se críticos contra as conclusões de relatórios executados e apresentados no parlamento gaulês por um produtor e duas deputadas do LREM (Movimento Em Marcha! de Emmanuel Macron).

Os relatórios sugeriam que se deveria reduzir o número de filmes produzidos em França, limitando a atribuição de subsídios por parte do CNC (Centro Nacional do Cinema e da Imagem Animada) a projetos que têm possibilidade de fazer mais de 50 mil espectadores nas salas, ou então com alguma apetência a serem exportados.
Essas sugestões foram anunciadas por Céline Calvez, Vice-Presidente da Comissão dos Assuntos Culturais, e Marie-Ange Magne, Membro do Comité de Finanças, que examinaram o funcionamento do CNC, ouvindo cerca de quinze profissionais. Essas conclusões foram agora críticadas através de uma carta aberta publicada no site da Société des Réalisateurs de Films (SRF – Sociedade dos Realizadores de Cinema), organização que fala num ataque ao cinema de autor: “No cerne de ambos os relatórios existe o mesmo argumento central (…) fazemos muitos filmes em França (237 em 2018). Como consequência, muita dispersão de investimentos e, principalmente, pouco lucro das obras. Assim, deveria haver menos filmes. O relatório insiste num número: mais da metade das obras produzidas fazem menos de 50 mil espectadores nos cinemas. Seriam esses filmes que deveriam ser travados. A maioria deles são de autor.”
A SRF lembra ainda que é no cinema independente que se encontra a renovação do cinema gaulês, já que mais de 30% dos filmes produzidos são primeiras obras; que a contabilidade e o lucro de um filme só pode ser vista no final de cinco anos; e que muitos destes filmes não conseguem chegar a mais público “porque os grandes circuitos de distribuição e exibição” não os apoiam.
“Querer eliminar filmes seria absurdo, isto numa época em que os canais de disseminação [das obras] se multiplicam“, explica ainda o texto, que conclui que se deve proteger a presença no mercado local de filmes franceses, que constituem cerca de 40% do total do mercado francês: “Esta quota de mercado excecional está diretamente ligada à riqueza da oferta. Eliminar estes filmes “em excesso” seria pôr em perigo aquela parte do mercado que toda a Europa inveja.”, diz o texto. Nos subscritores desta carta encontramos nomes como Jacques Audiard, Cristele Alves Meira, Xavier Beauvois, Lucas Belvaux, Bertrand Bonnello, Mati Diop, Joachim Lafosse, Michel Ocelot, Antonin Peratjatko, Pierre Salvadori, Céline Sciamma, Hustine Triet, Claire Simon, Rithy Panh, Eugène Green e Rebecca Zlotowski.
Quem também já tinha criticado as propostas apresentadas no parlamento pelas duas deputadas foi o Ministro da Cultura francês, Franck Riester, que em junho defendeu o atual modelo de trabalho e financiamento do CNC e descartou qualquer alteração.

