Terminou ontem o Festival de Cannes e embora não tenha existido nenhuma polémica como aquela que há dois anos colocou Lars Von Trier em conflito com o Festival, esta edição ficou marcada por alguns momentos mais «tensos». De inúmeros assaltos, passando por polémicas em torno de afirmações de cineastas, o Festival ficou marcado por grandes desilusões, mas também algumas surpresas e nomes definitivamente a ter em conta no futuro do cinema e do próprio certame.
Aqui fica um apanhado – não ordenado por importância – de alguns dos momentos marcantes do mais famoso festival de cinema do mundo.
Assaltos, Impostores, viagens ao espaço e tiros
No dia 17, curiosamente o mesmo dia em que estreava The Bling Ring de Sofia Coppola, a policia informa que na noite anterior ocorreu um assalto no Hotel Novotel em Cannes. O roubo aconteceu no quarto de um funcionário da joalheria Chopard. Os ladrões desmontaram o cofre e levaram as joias, estimando-se o valor do roubo em 1 milhão de dólares. Posteriormente, um novo golpe ocorreu, desta feita no resort de luxo de Cap d’Antibes, muitas vezes palco de eventos durante o festival. O alvo foi um colar avaliado em 2,6 milhões de dólares. Quem também foi vitima de assalto foi Zhang Qiang, vice presidente do China Film Group – que viu as suas posses roubadas do seu apartamento numa luxuosa Vila. Num blog, o chinês não teve problemas em afirmar que a segurança em França era péssima e que as pessoas foram bastante arrogantes.
Impostores e viagens ao espaço
A história não é nova, mas ganhou contornos cómicos quando alguém se fez passar pelo sul-coreano Psy e conseguiu aceder a uma série de festas privadas, ser fotografado pelos paparazzi e posar com vários famosos. Foi um verdadeiro comic relief do certame.
Também ligeiro foi o momento em que foi leioloada, num evento de caridade, uma viagem ao espaço com o ator de Leonardo DiCaprio. Esse leilão rendeu 1.2 milhões de dólares.
Tiros & Caos
O Festival de Cannes viveu um momento de grande pânico. Durante evento, um homem disparou uma arma e transportava consigo uma falsa granada. Todo o pânico gerado pelos disparos foi registado pelo Le Grand Journal do Canal + e na presença dos membros do júri Christoph Waltz e Daniel Auteuil. Quanto ao autor dos disparos, este foi prontamente detido pelas autoridades. Sabe-se que tinha 42 anos e apresentava claros sinais de desequilíbrio mental.
Prostituição e polémica
Ao The Hollywood Reporter, François Ozon afirmou que a prostituição era secretamente uma fantasia feminina. Esta afirmação bombástica valeu-lhe sérias críticas nas redes sociais, com a Femen à cabeça ao afirmar que o cineasta merecia a Palma de Ouro da Idiotice. Ozon retratou-se posteriormente, afirmando que tinha sido mal interpretado e que se referia apenas em relação às personagens do seu filme. Tarde demais…
Curiosamente estas declarações surgiram na mesma altura em que o The Hollywood Reporter apresenta um artigo sobre o negócio da prostituição de luxo durante o festival – onde é dito que havia acompanhantes a ganharem 40 mil dólares por noite. Nas redes sociais, Steven Gaydos (editor executivo da Variety) escreveu «Alguém me pode explicar como é que o lobby do elegante Hotel Carlton se transformou numa central de prostituição?»
Ryan Gosling não vai a Cannes e Nicolas Winding Refn desilude
A filmar a sua primeira longa metragem na cadeira de realizador, Ryan Gosling não esteve presente em Cannes para apresentar Only God Forgives, o novo filme de Nicolas Winding Refn (com que já tinha trabalhado em Drive). O filme foi vaiado no evento (no meio de alguns aplausos e gritos de «bravo»), mas genericamente foi criticado pela imprensa, que afirma que carrega na violência sem sentido. Na conferência de imprensa, Refn não foi polémico, mas surpreendeu os jornalistas com elementos fantasmagóricos que o incitaram a construir uma obra que mistura misticismo e realidade. Segundo ele, quando a sua filha nasceu ela tinha a capacidade de ver fantasmas. Quando estavam num apartamento em Banguecoque, ela acordava todas as noites a gritar e a apontar para a parede. Cansado e assustado com a situação, Refn telefonou à produtora tailandesa a dizer que acreditava que havia um fantasma na casa. O realizador confessa que se fizesse isso na Europa seria crucificado, mas que ali disseram-lhe logo: Ah…ok. Meia hora depois apareceu a produtora com um xamã. Foi aí o momento em que percebeu que espiritualidade, misticismo e realidade têm um sentido muito diferente na Ásia. Esse foi também o momento em percebeu que este era o filme que queria realmente fazer.
Amor lésbico vence Palma de Ouro
Era o grande preferido da imprensa, mas o facto de Steven Spielberg presidir o júri levou muitas a afastarem o cenário de uma potencial vitória. Ainda assim, La Vie d’Adele, do cineasta francês de origem tunisina Abdellatif Kechiche («A Esquiva», «O Segredo de um Cuscuz» e a «Venús Negra»), saiu mesmo do Festival de Cannes com o principal galardão.
Protagonizado por Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux, a longa-metragem é uma adaptação livre da banda-desenhada de Julie Maroh, Le bleu est une couleur chaude. Nela seguimos a história de Adèle como a sua vida muda quando ela conhece Emma, uma jovem de cabelos azuis, que lhe apresenta uma outra forma de ver o desejo.
Mariane Vatch, Adèle Exarchopoulos e Oscar Isaac…. dão nas vistas
Depois de diversos trabalhos no mundo da moda, onde curiosamente se incluía um spot publicitário onde surgia ao lado de Vincent Cassel para um perfume de Yves Saint Laurent, Marine Vacth (na imagem acima), deu nas vistas em Cannes como a jovem, bonita e prostituta no novo projeto de François Ozon. “Não quero nem pensar no impacto de Cannes“, afirmou a atriz que recusa as comparações com Catherine Deneuve em A Bela de dia. “Não sou Catherine Deneuve. Quero ser eu mesma e não seguir os passos dos outros“, concluiu.
Até à apresentação de La Vie d’Adele em Cannes, Adèle Exarchopoulos era uma jovem de 19 anos praticamente desconhecida. É ela que conhecemos na insegurança e incerteza dos 15 anos. Segundo a imprensa internacional é ela que acompanhamos na sua chegada à idade adulta num filme onde ao lado Lea Seydoux protagoniza uma das mais belas histórias de amor.
Igualmente em foco esteve Oscar Isaac, que interpreta no cinema o protagonista de Inside Llewyn Davis, o novo filme dos Coen. Para além de atuar, Isaac cantou (e encantou) na pele do cantor folk Llewyn Davis.
Da fuga aos Kmer Vermelhos ao triunfo em Cannes (passando pelo Docliboa)
Há dois anos (2011), Rithy Pahn apresentou clandestinamente no Doclisboa Duch, le maître des forges de l’enfer. A razão do secretismo prendia-se com o facto de uma ordem judicial. O filme nunca fez parte do programa (oficialmente) e seria exibido livremente (e novamente) na edição 2012. Nesta passagem pelo Festival de Cannes na secção Um Certo Olhar, agora com a obra L’Image manquante, o cineasta franco-cambojano continua a falar sobre o horror do genocídio no Camboja em memória dos sobreviventes do regime do Khmer Vermelho, que governou o Camboja entre 1975 e 1979. Neste trabalho, Pahn – que fugiu dos campos de trabalhos forçados do Khmer Vermelho, onde perdeu parte de sua família – procura “a imagem que faltava” do genocídio (daí o nome do filme), que o permitiria contar a história.
Salvo conquista a Semana da Crítica. Gambozinos é a melhor curta na Quinzena dos Realizadores
O drama filmado em Palermo Salvo [na imagem acima], de Fabio Grassadonia & Antonio Piazza, venceu o Grande Prémio Nespresso da Semana da Crítica em Cannes. O filme, sobre um assassino contratado pela Máfia e a sua ligação à irmã de um homem que assassinou, venceu ainda o Prémio Revelação France 4.
Já na Quinzena dos Realizadores, a comédia francesa Les Garçons et Guillaumen, à table! foi a grande vencedora. Neste filme de Guillaume Gallienne, o autor revisita a sua confusa juventude, estando em particular destaque a sua relação tragicómica com a mãe. De notar que esta obra, para além de receber o principal prémio do certame, foi ainda agraciada com o Prémio SACD.
Na mesma mostra, mas nas curtas-metragens, João Nicolau e o seu Gambozinos [na imagem acima] conquistou o prémio de Melhor Curta. A obra, com momentos entre o sonho e a realidade, acompanha um miúdo de 10 anos num campo de férias que tem de “sobreviver” à tirania de miúdos mais velhos (pertencentes ao grupo Exterminadores) e conquistar a sua rapariga de sonho. Para conseguir isso, porque não ceder o cartão de Bingo premiado à sua amada e criar-lhe mesmo um Rap?

