Documentários são o destaque no encerramento da Mostra de Cinema Judaico

(Fotos: Divulgação)

 Para o último dia da Mostra (25/05), que está a decorrer desde 22/05 no cinema São Jorge, em Lisboa, ficaram reservados três documentários e o filme de Margarethe von Trotta sobre Hannah Arendt (ler artigo).

O APARTAMENTO

Quando morre um idoso particularmente culto e que no decorrer da vida teve posses, o que fica para os herdeiros é, muitas vezes, uma casa atabalhoada de objetos, livros antigos e um arsenal de “tralhas” em geral sem valor. Felizmente no caso de O Apartamento, antes que os seus pragmáticos parentes pusessem o que pertenceu a Gerda Tuchler no lixo, um neto com espírito do mais inquisidor salvou alguns itens. Trata-se do realizador Arnon Goldfinger, que ao remexer no “entulho” deparou-se com uma história incrível.

Através de uma reconstituição à base de fotografias, cartas, entrevistas e artigos de imprensa, Goldfinger descobriu que os avós, que fugiram da Alemanha pouco antes dos nazis porem em marcha a sua “solução final”, mantiveram uma amizade muito próxima com um dos chefes e especialistas da política nazi para os judeus – Leopold von Mildenstein.

Extremamente intrigado com a descoberta, o cineasta vai à Alemanha, para descobrir lá a filha dele que, por sua vez, ignora completamente que o pai foi um dirigente nazi. Aparentemente, Mildenstein era adepto da emigração voluntária dos judeus para Israel, tendo sido ultrapassado politicamente num confronto com o poderoso Reinhard Heydrich, que colocaria Adolf Eichmann no seu lugar para “apressar” a solução do “problema judaico”. E foi através da grande amizade entre os casais Mildenstein e Tuchler que estes fugiram a tempo para Israel… Mas como continuaram amigos depois de tudo o que aconteceu? Mas não é tudo: uma descoberta a meio torna o enigma ainda mais misterioso.

O realizador disse que, inicialmente, não tinha qualquer propósito de fazer um filme ao aparecer com sua câmara no apartamento – apenas documentar “um mundo que lhe era familiar e desaparecia rapidamente”. A descoberta de uma moeda, no entanto, com uma suástica de um lado e a cruz de David de outro, causou-lhe curiosidade e, a partir daí, as descobertas não pararam de aumentar. O resultado é um filme cativante na sua maior parte.

HAVA NAGILA

Este filme é um divertido documentário sobre facetas mais profundas da cultura judaica, mas partindo de um ponto insólito: a música Hava Nagila, uma das mais famosas e emblemáticas canções do seu povo. Com depoimentos de nomes conhecidos, como Harry Belafonte (intérprete de uma de suas mais famosas versões), Leonard Nimoy, e Glenn Campbell, Hava Nagila vai buscar as origens da música, nos confins da Ucrânia, para reconstruir um pouco da história e da cultura hebraica.

A realizadora Roberta Grossman disse que a música não tinha o caráter de como é atualmente conhecida nos Estados Unidos, onde é muito usada nas celebrações em casamentos. Pelo contrário, o seu conteúdo inicial era extremamente político, vinculada a criação da consciência de uma cultura hebraica a ser estabelecida na Palestina – muito antes do surgimento de Israel. Grossman relata um momento extraordinário que denota, com o passar dos tempos, a versatilidade da música, quando viu a prestação de Harry Belafonte a cantá-la na Alemanha, nos anos 60. “Era um afro-americano a cantar na Alemanha, um país onde apenas uma década antes se tinha cometido o holocausto!”.

A Mala de Hana

Uma professora infantil, Fumiko Ishioka, dirige o museu do holocausto, no Japão. Num país cujo trauma histórico maior é, compreensivelmente, as duas bombas atómicas que recebeu na 2ª Guerra Mundial, ela vai dando a conhecer aos seus alunos os elementos de uma tragédia longínqua. É nesta trajetória que entra a “mala de Hana” do título, um dos objetos que vai parar ao museu – uma “lembrança” fornecida numa visita que Ishioka fez ao campo de concentração de Auschwitz. Mas… quem foi Hana? O filme, seguindo as pegadas da professora japonesa, vai reconstruir a história da menina, morta num campo de concentração, e da qual restou apenas a sua mala…

Essa versão de fundo didática é baseada num livro canadiano homónimo de 2002, de Karen Levine, que é muito popular nas escolas do seu país e até mais lido pelos jovens que o famoso “Diário de Anne Frank”. Neste sentido, o realizador Larry Weinstein manteve o espírito da obra literária e direciona seu filme para jovens e crianças.

Segundo o documentarista, também canadiano, ele não tinha qualquer interesse em fazer algo sobre uma temática tão sombria quanto o holocausto. Mudou de ideias, no entanto, quando leu o livro, pois segundo ele, apesar de tratar de um assunto pesado, estava repleto de noções como esperança, tolerância e outros valores positivos – para além de “possuir lições que deviam ser apreendidas”.

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