Passou pelo Festival de Locarno e foi o escolhido pelos australianos para representá-los no Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira (o filme é falado em alemão), Lore é um dos grandes destaques da Mostra de Cinema Judaico que decorre em Lisboa entre os dias 22 e 25 de maio. O filme é exibido no cinema São Jorge nesta sexta-feira (24/05), às 18h30, e será distribuído comercialmente em Portugal (ainda sem data definida).
Realizado pela australiana convertida ao judaísmo Cate Shortland, a obra narra a epopeia de uma família de crianças filhas de nazis caídos em desgraça a perambular pela Alemanha devastada do pós-2ª Guerra Mundial. A despeito dos prémios e reconhecimentos, o retrato é duríssimo e não poupa doses consideráveis de sexo (fruto de violações, especialmente) e violência. Pior ainda é a atmosfera de desespero e miséria generalizada, mostrando uma terra de ninguém devastada moral e materialmente.
Exorcismos
Na origem do projeto está a escritora britânica Rachel Seiffert, autora do livro The Dark Room (traduzido em Portugal com o título A Câmara Escura), que de certa forma exorciza as suas próprias origens: ela é filha, neta e sobrinha de nazis. O cunho biográfico é considerável: Lore foi inspirado pela história verídica da mãe da autora.
Seiffert foi mais jovem escritora (28 na altura) a ter um livro na lista final dos nomeados ao Booker Prize, em 2001. Através de três histórias, aborda, justamente, a pesada herança deixada pelos nazis ao povo alemão – que, com o término da guerra, revelava-se perplexo e incapaz de perceber o que tinha acontecido.
Sexo e violência
A realizadora, que deu nas vistas em Cannes em 2004 com seu filme de estreia, Salto Mortal mergulhou a fundo na atmosfera vivenciada pelos alemães após a derrota na guerra. Segundo disse a Collider, uma das grandes possibilidades da história era desmitificar a visão pré-concebida do país, contando uma história sem os preconceitos habituais. Em busca de maior realismo, acabou por intensificar elementos como sexo e violência, presentes no livro em menor medida. “O livro era sobre a mãe dela (Seiffert) e acho que ela tentou protege-la. O filme ficou mais sexual e um bocado mais violento”, afirmou.
Como ser filho de genocidas
Nada simples é outro conflito intrínseco à história de Lore: como viver a saber que os pais foram corresponsáveis por execuções massivas de inocentes? Shorltand diz não ter tentado dar uma resposta simples. “Eu não sei o que faria se descobrisse, por exemplo, que meu pai era pedófilo, mas acho que dificilmente poderia amá-lo depois de saber. Ela vive num ambiente de bancarrota moral e tem que reconstruir-se a si própria”.
Instintos
Como não poderia ser de outra forma, muito da força do filme recai sobre a jovem atriz Saskia Rosendahl, que faz a personagem principal. Bem distante dos tormentos da sua personagem, neste momento a atriz lida com outras questões: assimilar as conquistas e os elogios que têm recebido pela sua prestação. Conforme contou à Cine Europa, Rosendahl não fazia a menor ideia da dimensão do projeto nem da sua importância central no filme. Para se preparar, para além dos documentários que viu, entregou-se às sugestões da realizadora – que, no entanto, colocava-lhe questões como “o que Lore faria agora?” Sem experiência prévia, só lhe restava o instinto. “Teve de ser assim, não havia outra forma”, disse.

