Festivais há muitos, mas nenhum é tão singular como o Festival de Cans

(Fotos: Divulgação)

Durante uns dias, Cans converte-se no epicentro do terramoto cinematográfico mundial, com ou sem permissão do seu meio-irmão francês, o Festival de Cannes, com quem sempre coincide nas datas. À sofisticação e ao glamour da Côte d’Azur, o Festival de Cans oferece altas doses de natureza, diversão e agroglamour.

Assim se pode ler na página da internet do Festival de Cans, um certame dedicado às curtas-metragens (mas que também apresentas algumas longas) que ocorre numa pequena freguesia de Porriño, em Pontevedra, na Galiza, desde 2004, altura em que nasceu quase como uma piada.

Na verdade, há muito que se brincava quando se via no telexornal galego falar do Festival de Cannes. Nos cafés e bares desta povoação com pouco mais 400 habitantes gozava-se com a hipótese de fazer um certame cinematográfico, aproveitando-se do facto da sonoridade das duas localidades ser semelhante. Da piada a avançar com o projeto foi um passo, e para isso contribuíram uma associação cultural, a população e o guionista galego Alfonso Pato – que se transformou no director do evento.

Na primeira edição, e entre galinheiros e tratores (como a imprensa espanhola ainda hoje define o evento), conseguiu-se 500 espectadores. Em 2012, os espectadores já chegaram aos 10 mil. O orçamento também aumentou. Dos 3 mil euros gastos na primeira edição, chegou-se aos 90 mil já este ano.

O Festival que toma conta da aldeia

Toda a localidade vive o certame com uma intensidade inacreditável. Da Igreja Paroquial à casa dos habitantes, todos contribuem para o evento. Estas habitações/espaços assumem o papel de salas de projecção, sejam meros alpendres, currais ou adegas, tudo se transforma em sala de espectáculo. Por exemplo, a “sala” Bugarín corresponde a espaço cercado de estábulos e currais onde vivem animais. Como a organização diz, esta é uma das salas mais animadas, não só porque é aqui que passam os filmes de animação, mas porque os animais vão contribuindo durante a projecção para a banda-sonora. Melhor ainda. Uma das outras características do festival – que não se resume apenas em passar filmes – são concertos musicais, havendo mesmo uma atividade apelidada de Galinheiro Unplugged – que é exatamente o que podem imaginar (ver foto abaixo para acreditar).

Bem-vindo ao agroglamour

Se há coisa que a organização do certame não oferece é a ilusão aos visitantes que vão encontrar vistosos tapetes vermelhos repletos de estrelas. Na verdade, poderão encontrar tapetes de várias cores e ter mesmo acesso ao transporte oficial do evento: o Chimpibús. Ao contrário das limusinas de Cannes, Cans optou pelo transporte mais usado localmente: tratores agrícolas. Assim, e durante alguns dias, estes veículos deixam de transportar mato, ervas ou estrume, e transportam os visitantes para as oito salas onde são apresentadas as curtas-metragens a concurso. Há até dois percursos estabelecidos: Torreira-Cemitério e Torreira-Adroza.

A Fama

Se personalidades do cinema espanhol, como Luis Tosar, José Sacristán, Fernando León de Aranoa e Isabel Coixet, ficaram abismados com as singularidades do evento quando o visitaram, a fama do certame ganhou um grande impato através da internet.

Atualmente, o Festival de Cans é o terceiro certame espanhol, atrás de Sitges e San Sebastian, com mais seguidores na rede social Facebok. Já são cerca de 13 mil e estima-se que até ao dia 22 de maio (quando começa a 10ª edição), esse número aumente.

O Prémio

Embora o nome de Cans (cães) não tenha nada a ver com o animal, mas com os canais de água, a silhueta do cão é já um ícone inconfundível do festival. Durante o mês de maio (e em alguns casos durante o ano inteiro) adorna as varandas e os telhados de boa parte das casas da freguesia, bem como dos Chimpibús. Por isso mesmo, o prémio entregue pelo festival é um glorioso Cão em Granito, elaborado por Paco, o canteiro-artesão da freguesia.

 

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