Depois de ter sido um dos grandes homenageados do Lisbon & Estoril Film Festival em 2011, tendo mesmo recebido das mãos de Paulo Branco um Prémio pela sua longa e vasta carreira, onde foi frequente visitar os conflitos entre o bem e o mal, o cineasta William Friedkin – mais conhecido por filmes como O Exorcista e Os Incorruptiveis contra a Droga – vai ser agraciado com um prémio pela sua carreira no Festival de Cinema de Veneza, a decorrer de 28 de agosto a 7 de setembro.
Esta homenagem servirá também para paralelamente ser apresentada uma versão restaurada de O Comboio do Medo, um filme de 1977 protagonizado por Roy Scheider.
“O Leão de Ouro é algo que nunca esperei, mas sinto-me muito orgulhoso e aceito este prémio com gratidão e amor.”, afirmou Friedkin, cuja história no certame nos remete a Jade (apresentado em Veneza em 1995) e Killer Joe (em competição em Veneza em 2011).
Recuperamos agora um artigo publicado em 2011 sobre o cineasta:
William Friedkin
William Friedkin nasceu em Chicago a 29 de Augusto de 1935, e não 1939 como durante muito tempo se pensou. Filho de uma enfermeira e de um vendedor e desportista semi-profissional, que acabaria como seus dias como indigente, o pequeno Friedkin procurava o cinema como escape das suas pobres origens. Entre os filmes que destaca dessa época está Citizen Kane, de Orson Welles, que o marcaria profundamente.
Logo após terminar o liceu, Friedkin começou a trabalhar em televisão. O seu primeiro trabalho data de 1962, e chamou-se The People vs. Paul Crump. O filme documental feito para televisão abordava a polémica temática de um condenado cuja confissão foi obtida por intermédio de violência policial. O documentário acabou por proibido em televisão, mas reconhecido pelo San Francisco Film Festival com o Golden Gate Award.
Em 1965, muda-se para Hollywood. Entre os seus primeiros trabalhos está a colaboração com Hitchcock em The Alfred Hitchcock Hour. A sua primeira longa-metragem, Good Times, data de 1967, com a dupla Sonny e Cher nos papéis principais. Não teve particular sucesso. Seguiu-se uma fábula The Night They Raided Minsky’s. No próximo trabalho em 1970, William Friedkin arriscou levar ao cinema uma peça de teatro que abordava a homossexualidade, The Boys in the Band que criou algum “hype“, sobretudo pela interpretação do mesmo elenco que tinha levado a peça a cena.
O Reconhecimento
Mudando completamente o registo começou a trabalhar em The French Connection (Os Incorruptíveis contra a Droga). Com um orçamento restringido a dois milhões de dólares, o realizador resolveu apostar em dois atores relativamente desconhecidos à época: Gene Hackman e Roy Scheider. O estilo documental do filme, usado como forma de cortar custos acabou por ser considerado como um inovador e uma das perseguições em automóvel foi considerada como uma das melhores alguma vez filmada. O filme acabaria por vencer cincos Óscares em 1971: Melhor Filme, Realizador, Actor (Gene Hackman), Argumento (Ernest Tidyman) e Edição (Jerry Greenberg).
“The French Connection” (Os Incorruptíveis contra a Droga)
Na obra seguinte, William Friedkin voltou a mudar completamente o tom não só da sua cinematografia, mas do cinema de terror em geral. Tratava-se de The Exorcist (O Exorcista) e o ano era 1973. O filme sobre a possessão demoníaca de uma criança, com imagens particularmente explícitas, esta obra tornou-se um ícone do cinema em geral. Diz que Friedkin na sua senda para tirar o máximo dos atores chegou a assustá-los com tiros verdadeiros no set de filmagens. O filme bateu a barreira dos 100 milhões de dólares e teve direito a 10 nomeações aos Óscares (um caso raro para um filme de terror). William Friedkin reinava, mas este acabaria por ser este o seu auge.
http://www.youtube.com/watch?v=VsA3nxzgK-M
Perdido nos anos 80 e 90
Seguiu-se mais uma vez o terror com Sorcerer (O Comboio do Medo) em 1977. O filme era um “remake” e transformou-se num colossal “flop”. Em 1979 seguiu-se The Blink Job, o filme reunia um elenco de luxo para a altura – Peter Falk, Warren Oates e Paul Sorvino – mas revelou-se um igual fiasco em bilheteira.
Seguiu-se mais um filme que causou alguma polémica. Estávamos no início da década de 80 e o filme foi Cruising protagonizado pelo jovem Al Pacino. O filme acompanhava um polícia que começava a trabalhar infiltrado na comunidade gay de Nova Iorque de forma a apanhar um serial killer. “Cruising” provocou protestos generalizados, os mais moralistas reclamavam contra a violência e sexualidade explícita, e a comunidade gay de Nova Iorque contra a forma como se via retratada na obra. E o filme acabou por redundar em mais um falhanço.
Entrou no campo da comédia com Deal of the Century, uma sátira sobre o tráfico de armas com Chevy Chase, Gregory Hines e Sigouney Weaver nos papéis principais, mas mais uma vez a aceitação do filme foi escassa.
Voltando a pisar terrenos mais confortáveis, o realizador apresentou em 1985 o filme To Live and Die in LA. A obra foi baseada num livro escrito por um antigo agente secreto, e protagonizada por William Petersen (o Grisson de “CSI”) e por Willem Dafoe. To Live and Die in LA conquistou a critica mas não triunfou junto do público. Seguiu-se mais um “flop” com “Rampage” de 1987, obra sobre a pena de morte e a paranóia, que acabou afundado no meio da falência da produtora.
Rampage
Entre a Televisão e o Cinema
Nesta altura, possivelmente sem grande margem de manobra junto dos estúdios, o realizador voltou a virar-se para a televisão e abandonou o grande ecrã durante alguns anos. Retornou já na década de 90 com The Guardian, pisando novamente os terrenos do terror, mas o filme foi arrasado pela crítica e afundou-se na box-office.
Nesta altura, Friedkin retornou à televisão e aos telefilmes, mas sempre sem esquecer o cinema ao qual regressaria em 1994 com Blue Chips. O filme trouxe o realizador num registo completamente diferente do que havia feito até aqui, o drama desportivo.
No ano seguinte realizou Jade, um thriller erótico com Linda Fiorentino no papel principal. Regressa apenas em 2000, com um filme de guerra: Rules of Engagement (Compromisso de Honra). O filme teve críticas variadas mas mesmo assim teve alguma aceitação pelo público, e recebeu ainda o título de “filme mais racista alguma vez feito contra os árabes por Hollywood” pelo Comité contra a discriminação Americano-Árabe.
Os trabalhos mais recentes
Mas nada do que dissessem dos seus filme levava William Friedkin a parar. Regressa passados três anos em mais um filme de acção, The Hunted (O Batedor), fita com Benicio Del Toro e Tommy Lee Jones como protagonistas. Em 2006 apresentou Bug, um intenso thriller psicológico sobre um veterano de guerra no limite da paranóia.
Subestimado na sua obra ou não, a verdade é que William Friedkin nunca desistiu de fazer cinema, e de mudar constantemente de registo o que não lhe possibilitou criar verdadeiramente uma marca pessoal. Certo é que independente do seu percurso a seguir a meados de 70, o realizador conquistou desde já o seu lugar na história do cinema.
Um regresso em grande – Killer Joe
Este ano William Friedkin apresenta Killer Joe. O filme é apresentado como uma violenta comédia negra e apresenta uma temática muito em voga no cinema americano, as famílias disfuncionais pobres. Nela seguimos uma família que pretende matar a matriarca de maneira a receber o dinheiro relativo ao seguro de vida dela.
Killer Joe conta com Matthew McConaughey, Emile Hirsch, Juno Temple, Thomas Haden Church e Gina Gershon nos principais papéis. O filme estreou no Festival de Cinema de Veneza em 2011 e parece ter conquistado a crítica. Por cá passou pelo LEFF, mas ainda não teve a sua estreia comercial.