O trabalho de maior lastro metafísico de Brad Pitt desde The Tree of Life (2011), Palma de Ouro de Cannes, Heart of the Beast ilustra também o interesse do ator, aqui igualmente produtor, em refinar parcerias com cineastas que lhe ofereceram vias para investigar a condição masculina e a sua própria cinefilia. Com Quentin Tarantino, brincou ao filme de guerra em Inglourious Basterds (2009) e aos bastidores da televisão em Once Upon a Time… in Hollywood (2019). Com David Fincher, despedaçou engenhos da virilidade em Se7en (1995), Fight Club (1999) e The Curious Case of Benjamin Button (2008). Com David Ayer, encontrou outra vereda: pensar a paz. Já o fizera dentro do espaço claustrofóbico de um tanque em Fury (2014). Agora tem a imensidão da floresta praticamente toda para si — e para Odin, um cão de combate interpretado sobretudo pelo pastor-alemão Uber.
Os dois percorrem um filme de autor. E a autoria de Ayer é bruta. Estruturado numa cadência que as narrativas de alta voltagem contemporâneas parecem ter desaprendido a decantar, Heart of the Beast parte de um trauma individual ligado ao inferno da guerra para regressar à velha literatura anglo-saxónica de sobrevivência. Está mais perto de Jack London e do seu White Fang do que de Rin Tin Tin. Odin não funciona como adereço sentimental: carrega um coprotagonismo elegante num relato sobre o reencaixe de seres feridos dentro da natureza. James Belmont, o veterano interpretado por Pitt, encontra aí uma linhagem igualmente antiga, próxima do Robert Redford de Jeremiah Johnson (1972): o homem que procura na paisagem uma possibilidade de reorganização moral.
Belmont abandonou as Forças Especiais depois de ver o próprio cão de combate pagar fisicamente pelas guerras dos homens. Quando um acidente aéreo os deixa isolados no Alasca, a sobrevivência oferece a Ayer uma desculpa de género para investigar aquilo que realmente lhe interessa: o que resta do guerreiro quando já não existe uma guerra a vencer. A paz procurada no mato transforma-se em perigo; o perigo, nas mãos do realizador, converte-se numa educação sentimental.
Ayer construiu a carreira justamente em torno de homens contaminados pelos códigos das instituições violentas às quais pertencem. Em End of Watch (2012), deformava a figura do bom polícia ao aproximar a câmara dos corpos; em Sabotage (2014), corroía Schwarzenegger por dentro; e em Fury (2014) conduzia Pitt pela II Guerra Mundial dentro de uma máquina concebida para matar. Até Suicide Squad (2016), experiência industrial que tornou particularmente difícil a sua relação com o sistema dos grandes estúdios, pode ser lido como prolongamento desse fascínio por comunidades masculinas construídas através da violência. Depois dele, filmes como The Tax Collector (2020), The Beekeeper (2024) e A Working Man (2025) tornaram o seu cinema mais despojado e frontal.
Heart of the Beast representa, porém, uma inflexão. O sangue já não é o destino principal da encenação. Ayer está mais interessado nas cicatrizes que permanecem depois dele. Mauro Fiore, diretor de fotografia de Training Day (2001), encontra na Nova Zelândia uma natureza que não serve simplesmente de postal turístico para o Alasca: a paisagem torna-se uma dimensão espiritual contra a qual Belmont precisa de medir a própria insignificância. Pitt responde com uma interpretação sem gordura, fazendo regressar algo do aventureiro de Seven Years in Tibet (1997), agora envelhecido, quebrado e consciente de que resistência física e sobrevivência moral não são sinónimos.
Há um trunfo adicional na montagem de Dody Dorn, colaboradora de Christopher Nolan em Memento (2000) e Insomnia (2002). É ela quem impede que os 101 minutos caiam na monotonia potencial de acompanhar homem, cão e floresta. A alternância entre contemplação e ameaça física, atravessada pela memória traumática, preserva uma pulsação interna sem obrigar Ayer a encher a narrativa de incidentes. Dorn sabe sobretudo quando deixar Pitt e Odin simplesmente existirem juntos no plano.
J.K. Simmons, por sua vez, é uma presença secundária de luxo. A sua breve passagem pelo filme desempenha função semelhante à de Hal Holbrook em Into the Wild (2007), de Sean Penn, longa com a qual Heart of the Beast estabelece um parentesco genealógico evidente: a figura humana que surge no caminho do solitário para recordar que abandonar a sociedade não significa necessariamente libertar-se dela. Simmons precisa de pouco para deixar esse vestígio.
O maior risco estaria no próprio cão. Hollywood acumulou décadas de animais transformados em máquinas de chantagem lacrimal, mas Ayer evita em boa parte esse caminho. Uber — auxiliado por outros três pastores-alemães na composição de Odin — “atua” porque reage, observa, espera, sofre e estabelece com Pitt uma relação física convincente. O filme entende que a ligação entre ambos não precisa de tradução antropomórfica.
Talvez esteja aí a inesperada dimensão metafísica desta aventura. O soldado e o cão são dois veteranos a tentar descobrir o que fazer quando já não são necessários para aquilo que foram treinados a fazer. Depois de passar boa parte da carreira a filmar homens que resolvem conflitos pela força, David Ayer chega a San Sebastián, fora de competição, com um filme que pergunta como esses mesmos homens podem aprender a viver sem ela.
Em Fury (2014), Ayer e Pitt procuravam humanidade dentro de um tanque. Doze anos depois, encontram uma floresta inteira para procurá-la novamente. A autoria continua bruta. Só que, desta vez, a brutalidade aprendeu a ficar em silêncio. A sua quietude contagia. Nela, Pitt agiganta-se.



















