Num gesto de respeito pela obra de um dos mais admirados — e admiráveis — realizadores de língua inglesa, San Sebastián entregou a Concha de Ouro de 2026 a Mike Leigh e ao caloroso Tender Loving Care. Há um prestígio histórico envolvido na decisão — Leigh já recebeu a Palma de Ouro e o Leão de Ouro —, mas o prémio não se explica apenas pelo peso da carreira: há mérito evidente na beleza do que apresentou.
O realizador norte-americano Ira Sachs presidiu ao júri, do qual fizeram também parte a atriz e produtora brasileira Alice Braga, o realizador, escritor e produtor japonês Genki Kawamura, a argumentista francesa Catherine Paillé, a atriz basca Patricia López Arnaiz, o ator sueco Bill Skarsgård e o produtor britânico Mike Goodridge.
O júri atribuiu a Concha de Prata de Melhor Realização à sueca Amanda Kernell por Brace Your Heart, no qual uma mulher se vê confrontada com sentimentos proibidos numa comunidade rural.
Leigh recebeu ainda o Prémio do Júri de Melhor Argumento por Tender Loving Care, que poderá ser a última longa-metragem do cineasta devido aos problemas de saúde que têm limitado a sua mobilidade.
É uma possível despedida em grande estilo justamente porque se recusa a comportar-se como tal. Na aparente senda de simplicidade já percorrida em Another Year (2010), Leigh volta a esgrimir com as práticas quotidianas da empatia, mas desloca o olhar para uma realidade laboral particularmente ingrata.
Amy (Kate O’Flynn) trabalha na proteção de menores; a amiga Rosie (Alice Bailey Johnson) pertence também aos serviços sociais. As duas atravessam diariamente vidas quebradas, ressentimentos, precariedade e situações em que cuidar deixou de ser apenas uma virtude para se tornar profissão — exercida num sistema público britânico corroído pela falta de apoio institucional.
Amy oferece escuta, paciência e presença a desconhecidos e regressa depois a uma vida em que essas mesmas capacidades começam a ser exigidas dentro de casa. Birdie (Marion Bailey) e Geoff (Paul Jesson), os pais idosos, entram numa nova etapa da existência, quando a independência deixa lentamente de ser uma certeza. O filme valeu ainda a O’Flynn a Concha de Prata de Melhor Interpretação Principal.
Na secção Horizontes Latinos, o Prémio Horizontes Make & Mark foi para a Argentina, distinguindo La ilusión de un verano sin fin, estreia no cinema da fotógrafa Alessandra Sanguinetti, apresentada anteriormente na secção Cineasti del Presente do Festival de Locarno.
Sanguinetti acompanha, ao longo de 25 anos, Guillermina e Belinda, duas meninas dos pampas que começaram a partilhar fantasias e brincadeiras quando tinham apenas nove anos. Iniciado em 1999, o projeto observa a passagem da infância para a adolescência e, mais tarde, para o trabalho, a maternidade e percursos cada vez mais distintos.
Terminada a festa de Donostia, as atenções voltam-se agora para o Festival do Rio 2026, que abre as portas na quinta-feira, 1 de outubro, no Cine Odeon, com A Bola Preta, épico queer de Los Javis, nome pelo qual é conhecida a dupla espanhola Javier Calvo e Javier Ambrossi.
A narrativa acompanha a luta de diferentes homens gays contra a homofobia em três períodos da história espanhola e conta no elenco com Penélope Cruz e Glenn Close. O filme conquistou em San Sebastián o Prémio do Público Cidade de Donostia / San Sebastián e foi escolhido pela Academia de Cinema espanhola para representar o país na corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional.
Também a partir de quinta-feira, o público do Rio de Janeiro poderá descobrir Naza, de Rachel Szor e Yuval Abraham, distinguido em San Sebastián com o Prémio do Público para Melhor Filme Europeu.
Dois dos quatro realizadores de No Other Land, vencedor do Óscar de Melhor Documentário em 2025, Szor e Abraham voltaram a unir forças num filme que recebeu também o Prémio Especial do Júri no Festival de Veneza.
Filmado à noite, nos telhados de Telavive, Naza é um documentário de investigação que, segundo a apresentação oficial do filme, procura revelar os sistemas por trás da morte de civis palestinianos nas operações israelitas em Gaza.
- Concha de Ouro: Tender Loving Care, de Mike Leigh
- Prémio Especial do Júri: Border, de Ah Biao
- Melhor Realização: Amanda Kernell, por Brace Your Heart
- Melhor Interpretação Principal: Kate O’Flynn, por Tender Loving Care, ex aequo com Asta Kamma August, por Growth of the Soil
- Melhor Interpretação Secundária: Javier Cámara, por 5 Minutos Más
- Melhor Argumento: Mike Leigh, por Tender Loving Care
- Melhor Fotografia: Oska Dahlsbakken, por Growth of the Soil
- Prémio Horizontes Latinos: La Ilusión de un Verano Sin Fin, de Alessandra Sanguinetti, com menção para Moscas
- Prémio do Público Cidade de Donostia / San Sebastián: A Bola Preta, de Javier Ambrossi e Javier Calvo
- Prémio Perlak: Naza, de Rachel Szor e Yuval Abraham

