Convite a polémicas, “Triangle of Sadness”, de Ruben Östlund, conquistou a Palma de Ouro numa edição em que o Festival de Cannes careceu de obras-primas e de experiências transcendentais, limitando-se a 21 produções pautadas mais pela competência do que pelo transbordamento estético. A sua narrativa aposta na ironia ao usar um cruzeiro como metáfora para os descalabros do mundo contemporâneo, incluindo intolerâncias e rivalidades políticas, elencando Woody Harrelson como capitão da sua “navilouca”. É a segunda vez que ganha o troféu dourado cannoise: em 2017, saiu premiado por “The Square”. “Valorizo a simplicidade das situações da vida”, disse Östlund ao C7nema, em Cannes.
Quem presidiu o júri foi o ator francês Vincent Lindon, que julgou os 21 concorrentes ao lado de quatro atrizes de peso – Deepika Padukone, da Índia; Noomi Rapace, da Suécia; Rebecca Hall, de Inglaterra; e Jasmine Trinca, da Itália, sendo que essas duas também são realizadoras – e quatro cineastas: Asghar Farhadi (Irão); Ladj Ly (Mali – França); Jeff Nichols (EUA); e Joachim Trier (Noruega). Já a Palma das curtas-metragens, julgada por um grupo encabeçado pelo realizador egípcio Yousry Nasrallah, foi dada a “The Water Murmurs”, de Jianying Chen (da China). Houve ainda, nessa seara, uma menção honrosa para “Lori”, do Nepal.
Considerado o segundo troféu mais relevante do evento, o Grand Prix de Cannes ficou numa bifurcação ex æquo, entre “Stars at Noon” e “Close”. A francesa Claire Denis destacou-se no gosto de Lindon e a sua turma com uma história de amor ambientada na Nicarágua, mas rodada no Panamá, sobre uma jornalista (Margaret Qualley) enredada por conspirações da CIA. “É uma narrativa que nasceu na literatura, num romance de Denis Johnson que li há uns 12 anos e ficou em mim”, disse Claire ao C7nema, em fevereiro. Já Dhont deslumbrou o balneário falando do suicídio de uma criança, sob um véu de homofobia, deixando uma sombra pesada na alma do seu melhor amigo.
De boleia na celebração dos 75 anos do festival, o júri pediu autorização ao diretor artístico, Thrierry Frémaux, e conceder uma láurea especial: o Prix du 75ème. Os irmãos Dardenne, que já conquistaram duas Palmas, em 1999 (“Rosetta”) e 2005 (“L’Enfant”) foram coroados com a honraria, por “Tori et Lokita”, uma cartografia das exclusões na Europa, a partir do calvário de uma adolescente africana e do seu irmão.
Houve um resultado ex æquo no Prix du Jury, láurea que o Brasil ganhou, em 2019, com “Bacurau”. “Le Otto Montagne” – drama belgo-italiano sobre amizade, realizado por Charlotte Vandermeersch e Felix van Groeningen – dividiu o troféu com “EO”, do pintor e cineasta polonês Jerzy Skolimowski. O veterano da Polónia esteve no radar das apostas para prémios durante todo o evento, apoiado na força das suas imagens e na luta que trava contra os maus-tratos aos animais, a partir da jornada de um burro em prol da sobrevivência. Já o trabalho de Charlotte e Felix é muito calcado no esplendor da atuação de Luca Marinelli em meio a uma cruzada existencial por montes de diferentes locais do mundo. “Existe muita intolerância no mundo e é preciso atenção ao que podemos reconstruir como humanidade”, disse Skolimowski ao C7nema, quando esteve no Brasil, antes de rodar “EO”.
Na sua escolha para vencer a categoria de Melhor Realização, Lindon & cia. optaram por Park Chan-Wook, impressionados pela dimensão poética de seu trabalho à frente de “Decision to Leave”, um dos títulos mais populares da competição. Nele, um detetive apaixona-se pela suspeita de um crime e passa a sua ética em revista. “Sempre tomo o cuidado de não retratar a violência de maneira gratuita, sem que a ação representa algo para a dramaturgia que tento construir”, disse Chan-Wook.
Ao decidirem qual seria o Melhor Argumento do festival, a equipa escolheu laurear um “Boy From Heaven”, de Tarik Saleh, do Egito. É um enredo sobre disputa do poder religioso no Cairo, a partir da saga de amadurecimento de um filho de pescador que ascende à universidade.
Na disputa pelos prémios de Melhor Interpretação, a primeira estrela a ser anunciada foi Zar Amir Ebrahimi, a jornalista de “Holy Spider”, cuja curva dramática gira em torno do empenho de punir um psicopata feminicida. Vitória que foi ovacionada. Na sequência, o superstar sul-coreano Song Kang Ho (o pai de família de “Parasitas”, de 2019) foi galardoado por “Broker”, no papel de um malandro especializado em lucrar com a adoção de bebés abandonados.
Julgada por uma esquadra de artistas liderada pela espanhola Rossy De Palma, a Caméra d’Or, o troféu dado a cineastas estreantes ficou com “War Pony”, um drama com atores não profissionais sobre a população indígena Lakota, dos EUA, assinado por Gina Gammel e Riley Keough. Rossy deu ainda uma menção especial a “Plan75”, do Japão.
Os vencedores do Festival de Cannes 2022:
Palma de Ouro: “Triangle of Sadness”, de Ruben Östlund (Suécia)
Grand Prix: “Stars at Noon”, de Claire Denis (França) empatada com “Close”, de Lukas Dhont (Bélgica)
Prémio do Júri: “Le Otto Montagne”, de Charlotte Vandermeersch e Felix van Groeningen (Bélgica – Itália), em empate com “EO”, de Jerzy Skolimowski (Polônia)
Prix du 75ème (prémio especial de 75 anos de Cannes): “Tori et Lokita”, dos irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne (Bélgica)
Realização: Park Chan-Wook (“Decision to Leave”)
Interpretação Feminina: Zar Amir Ebrahimi (“Holy Spider”)
Interpretação Masculina: Song Kang Ho (“Broker”)
Argumento: Tarik Saleh (“Boy From Heaven”)
Melhor Curta-Metragem: “The Water Murmurs”, de Jianying Chen (China), com menção honrosa para “Lori” (Nepal)
L’Oeil d’Or: (a Palma do documentário) “All That Breathes”, de Shaunak Sen (Índia)
Prémio da Crítica: (votado pela Fipresci, Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica): “Leila et ses Frères” (Irã)
Prémio do Júri Ecuménico: “Broker”
Camera d’Or (melhor filme de estreia): “War Pony”, de Gina Gammel e Riley Keough (EUA)
Queer Palm: “Joyland”, de Saim Sadiq (Paquistão)

