Mais popular de todos os festivais brasileiros de cinema, criado no calor da ditadura militar que levou generais ao governo daquela nação sul-americana de 1964 a 1985, como um respiro democrático para o audiovisual, o Festival de Gramado comemorou 49 invernos (pois costuma ser sempre realizado nessa estação, em agosto) de 13 a 21 de agosto, consagrando “Carro Rei” com o troféu de melhor filme de 2021.
A sua láurea, uma figura sorridente, coberta de dourado, é batizada em homenagem ao Deus Sol dos Pampas gaúchos, região do Sul do Brasil, que também envolve parte da Argentina: o Kikito. Mestres como Nelson Pereira dos Santos, Eduardo Coutinho, Laís Bodanzky, Jeferson De, Anna Muylaert, Lúcia Murat e Otto Guerra já saíram de lá com o prémio, um farol de excelência, mas também de bons augúrios no diálogo entre veios de autoralidade e plateias enormes.
Agora, Renata Pinheiro, diretora de arte e realizadora vinda de Pernambuco, junta-se a esse rol de talentos. Conhecida por filmes como “Açúcar” (correalizado pelo seu companheiro, produtor e coargumentista Sérgio Oliveira), de 2017, e “Amor, Plástico e Barulho” (2013), Renata mobilizou olhares, durante as projeções online da maratona gaúcha (exibida na web, via Canal Brasil Play, e na TV, pela mesma emissora), com um enredo sci-fi que parece irmão mais velho de “Titane”, o vencedor da Palma de Ouro deste ano. No filme de Julia Ducournau, lançado em julho, uma mulher com próteses metálicas envolve-se com um carro, tem sexo com a máquina e engravida dele. No filme de Renata, lançada em janeiro, no Festival de Roterdão, de onde saiu cercada de elogiosas críticas, também há fetiche entre mulheres e máquinas automóveis, mas o foco é distinto, embora também aberto à fantasia.

“Não vi ‘Titane’, mas no nosso filme, abordamos a tecnologia como algo gestado pelo homem e, portanto, como parte dele, da humanidade. O homem, diferentemente dos outros animais, pode gestar o sobrenatural. Talvez o filme em si seja extraordinário quando amplia este enunciado, dando vida ao carro como sendo ‘um ser gerado somente por um macho’”, diz Renata, que viu o seu filme ser laureado ainda em outras frentes.
Somam-se vitórias e Kikitos de melhor desenho de som (dado a Guile Martins), direção de arte (de Karen Araújo) e banda sonora (de DJ Dolores), além de um prémio especial do júri, dado ao ator Matheus Nachtergaele, por um vulcânico desempenho. A sua trama lembra muito “Bumblebee” (2018), derivado da franquia “Transformers”, nos seus momentos iniciais. Em sua tensa narrativa, um miúdo é salvo de um atropelamento por um carro com quem ele estabelece uma estranha conexão. Por “estranha” leia-se: ele fala com o carro. Anos depois, dedicado ao ativismo ambiental, o moço (Luciano Pedro Jr.) retoma relação com o veículo, mas percebe que existe uma aura totalitária nele, mas vê seu tio, o mecânico Zé Macaco (Nachtergaele), conectar-se com esse totalitarismo.
“Acho que temos, sim, filmes brasileiros recentes do género fantasia, poucos, mas temos. Acho que a fantasia não exclui uma temática sociológica ou política. ‘Carro Rei’ aposta numa busca por um filme brasileiro em todos os seus aspectos. E ele está conquistando o seu espaço, seja no mundo, ou no Brasil”, diz Renata, que prepara seu lançamento comercial para janeiro de 2022, tendo, até lá, mais uma gama de festivais por onde passar.
Entre as sete longas-metragens em concurso, “Carro Rei” se impõe pelo exotismo, pela exuberância de Nachtergaele em cena e por um dinâmico ataque ao desmantelo da humanidade em tempos de binarismo nas opiniões, sobretudo aquelas trocadas nas redes sociais, desde que Jair Bolsonaro ganhou as eleições presidenciais, em 2018.
Mas, visualmente, o filme de maior esplendor na competição de Gramado, com cara de banda desenhada, foi “Jesus Kid”, de Aly Muritiba. É uma espécie de “Barton Fink” pop, baseado no hilariante romance homónimo de Loruenço Mutarelli, o mais festejado desenhador de BDs do Brasil. Na trama, um autor de pulps de western classe B, Eugénio (vivido pelo cantor Paulo Miklos, da banda Titãs), é chamado para escrever um roteiro de filme, sendo enfurnado num hotel onde precisa criar, em meio à sombria companhia do seu amigo imaginário, um cowboy metido a Giuliano Gemma (Sergio Marone). Muritiba ganhou o prémio de melhor direção, com a sua estética multicolorida, de cortes rápidos. Foram dados a seu filme cerebral ainda os Kikitos de melhor roteiro e melhor ator secundário, dado a Leandro Daniel Colombo, com traços de Jerry Lewis no papel de um paquete.

Nos quesitos, na melhor fotografia e melhor montagem, o vencedor foi “A Primeira Morte de Joana”, espécie de inventário dos assombros da adolescência, que vem consolidando o prestígio internacional de uma especialista nas angústias da juventude: a realizadora gaúcha Cristiane Oliveira. Em sinergia com o projeto estético dela, coroado ainda com o Prémio da Crítica, foram entregues láureas de edição a Tula Anagnostopoulos e de fotografia a a Bruno Polidoro. No roteiro, escrito pela cineasta e pela atriz Sílvia Lourenço, Joana, 13 anos, quer descobrir a razão da sua tia-avó falecer aos 70 anos sem nunca ter namorado alguém. Ao encarar os valores da comunidade em que vive no sul do Brasil, ela percebe que todas as mulheres da sua família guardam segredos, o que traz à tona algo escondido nela mesma.
“Pelo olhar da protagonista Joana, de 13 anos, vemos um recorte da intimidade de três gerações de sua família de mulheres. Cada uma das personagens representa um olhar distinto sobre opressões diversas que sofremos na nossa formação”, explica Cristiane ao C7.
Protagonista de fenómenos de bilheteiras como a franquia “Se Eu Fosse Você” (2015-2019), cuja receita astronómica vem da soma cerca de dez milhões de ingressos vendidos, Glória Pires foi laureada com o Kikito de melhor atriz pelo policial “A Suspeita”. Sob a direção (finíssima) de Pedro Peregrino, Glória vive Lúcia, uma renomeada investigadora. Aos 55 anos, ela dedicou toda a sua vida à profissão e é um nome respeitado entre seus colegas. Tudo muda durante uma investigação, na qual um famoso escritor, que estava trabalhando nas memórias de um dos chefes do tráfico no Rio de Janeiro, é assassinado. O Kikito de melhor atriz secundária foi dado ao magistral trabalho de Bianca Byngton em “Homem Onça”, ficção política que recria as privatizações de empresas públicas nos anos 1990.
Como melhor ator, o júri de Gramado – formado pela editora de som Catarina Apolonio, o ator Fabrício Boliveira, a produtora Ana Paula Mendes, a atriz Carol Castro e o cineasta Tabajara Ruas – escolheu coroar a tocante composição da personagem de Nando Cunha em “O Novelo”. É uma história de irmãos unidos pela feitura de croché. A produção de Claudia Pinheiro ganhou ainda uma menção honrosa, dada a um elenco formado por Fernando Lufer, Michel Gomes, Victor Alves, Kaike Pereira, Pedro Guilherme e Caio Patricio.
Desde o início dos anos 1990, quando a indústria cinematográfica brasileira passou por uma guilhotina, com a extinção da Embrafilme (empresa criada em 1970, que, ao longo de exatos 20 anos, fomentou a produção e a circulação dos filmes no mercado interior e no exterior), Gramado abriu uma competição internacional, voltada para promover uma conexão com os países da Pangeia latina, sobretudo da porção hispânica da América do Sul. Nessa categoria, o vencedor de 2021 foi o uruguaio “La Teoría De Los Vidrios Rotos”, de Diego Fernández Pujol. Nele, um rapaz acredita ter chegado a uma cidade tranquila, mas, ao se instalar por lá, precisa resolver um mistério um tanto peculiar e complexo para um especialista em seguros.
Na categoria curta-metragem, o Kikito sorriu para “A Fome de Lázaro”, de Diego Benevides. Nele, a matilha da pequena comunidade dos Monteiros, no interior do Paraíba espera mais um ano de banquete farto em oferta à promessa de São Lázaro.
Uma análise geral dos ganhadores revela uma aposta do cinema de género, em filmes que fogem do cabresto sociológico tradicionalmente amarrado à altura do olhar do cinema de risco e de invenção no Brasil, revelando uma diversidade mais livre, em suas abordagens formais e temáticas. Questões sociais urgentes estão ali, nas franjas, ferventes. Mas a liberdade no modo de retratá-las estava maior do que se costuma ver.
LISTA DAS LONGAS-METRAGENS BRASILEIRAS PREMIADAS
Melhor Filme – “Carro Rei”, de Renata Pinheiro
Melhor Direção – Aly Muritiba, por “Jesus Kid”
Melhor Ator – Nando Cunha, em “O Novelo”
Melhor Atriz – Glória Pires, em “A Suspeita”
Melhor Roteiro – Aly Muritiba, por “Jesus Kid”
Melhor Fotografia – Bruno Polidoro, por “A Primeira Morte de Joana”
Melhor Montagem – Tula Anagnostopoulos, por “A Primeira Morte de Joana
Melhor Trilha Musical – Dj Dolores, por “Carro Rei”
Melhor Direção de Arte – Karen Araújo, por “Carro Rei”
Melhor Atriz Secundária – Bianca Byington, por “Homem Onça”
Melhor Ator Secundário – Leandro Daniel Colombo, por “Jesus Kid”
Melhor Desenho de Som – Guile Martins, por “Carro Rei”
Melhor Filme pelo Júri Popular – “O Novelo”, de Claudia Pinheiro
Melhor Filme pelo Júri da Crítica – “A Primeira Morte de Joana”, de Cristiane Oliveira
Prêmio Especial do Júri para Matheus Nachtergaele, em “Carro Rei”, pela construção e domínio do personagem e pela brilhante capacidade de se reinventar.
Menção honrosa para Fernando Lufer, Michel Gomes, Victor Alves, Kaike Pereira, Pedro Guilherme e Caio Patricio por seu talento e potência em “O Novelo”.
Menção honrosa para Isabél Zuaa pela bela e impactante atuação em “O Novelo”

