Há uma ideia recorrente quando se tenta filmar Franz Kafka (1883-1924): a de que o escritor é menos uma figura biográfica do que um estado de espírito. Poucos autores resistem tanto às convenções da cinebiografia. A polaca Agnieszka Holland compreendeu isso desde o primeiro instante e faz de Franz um objeto cinematográfico que rejeita a cronologia como método e abraça antes a errância, a associação de ideias e a memória como formas de conhecimento. Em vez de explicar Kafka, procura reencontrá-lo. Soderbergh ousou algo parecido no hoje soterrado, no esquecimento, thriller que fez sobre, e com, o romancista, a contar com Jeremy Irons no papel central, lá em 1991. O seu Kafka é ousado, mas opta por um eixo romanesco de ação. Agnieszka solta-se mais ao mover-se pelo seu legado.

A realizadora nascida na Polónia regressa assim ao território onde melhor se move: o da anatomia moral da Europa. Aos 76 anos, depois de uma carreira iniciada ainda sob o comunismo e marcada por filmes como Europa, Europa, Mr. Jones, Charlatan, Green Border e Spoor, Holland continua interessada em desmontar os mecanismos que fabricam o medo, a exclusão e o silêncio. Agora fá-lo através daquele que talvez seja o escritor mais influente do século XX.

Apresentado primeiro no Festival de Toronto e, depois, em competição pela Concha de Ouro em San Sebastián, Franz impressiona precisamente por evitar o formato clássico da biografia ilustrada. A cineasta não procura reconstituir uma sucessão de episódios conhecidos da vida de Kafka, antes filtra tudo aquilo que considera acessório para construir um mosaico de imagens, tempos e sensações. A Praga do início do século XX convive com a cidade contemporânea, turistas cruzam-se com fantasmas do passado, a quarta parede dissolve-se constantemente e o próprio filme parece assumir a natureza fragmentária da escrita kafkiana.

A realização foge à obsessão inerente aos biopics pela reconstituição factual. Prefere eliminar tudo o que não fosse essencial. Não quer construir um Kafka definitivo; quer, nem mais, mostrar a sua procura por ele.

Essa procura nasce também de uma relação íntima. A realizadora descobriu Kafka aos 14 anos, numa Polónia onde o estalinismo classificava a sua obra como degeneração burguesa. Desde então percebeu que aquele universo de burocracias monstruosas, de culpa sem origem e de violência institucional dizia menos respeito ao passado do que ao futuro.

Não surpreende, por isso, que Franz seja um filme mais interessado no presente do que nos anos 1910 ou 1920. Holland filma Kafka como quem tenta compreender a Europa contemporânea. As perseguições mudaram de forma, os totalitarismos alteraram a linguagem e os mecanismos de opressão tornaram-se mais sofisticados, mas continuam a existir. A realizadora nunca escondeu que toda a sua filmografia procura desmontar essas engrenagens. Fê-lo em Mr. Jones, ao revisitar a fome provocada pelo estalinismo na Ucrânia; em Green Border, ao denunciar a crise migratória na fronteira entre a Polónia e a Bielorrússia; e volta a fazê-lo aqui, convocando um escritor cuja literatura parece ganhar novas camadas de atualidade sempre que a História escurece. Kafka entra e sai das sombras. A sua literatura entra e sai do radar. Mas, perante os tempos sombrios que se anunciam, nunca esteve tão atual.

O extraordinário trabalho de Idan Weiss evita igualmente a armadilha da imitação. O ator não procura reproduzir um ícone literário cristalizado pela cultura popular. Compõe antes uma figura quase espectral, vulnerável, por vezes sensual, noutras inquietantemente silenciosa. Holland interessa-se menos pelo génio do escritor do que pela humanidade do homem.

Essa observação ajuda a compreender a lógica de Franz. Não se trata apenas de um filme sobre um escritor. É um filme sobre a linguagem, sobre a forma como determinadas palavras sobrevivem às épocas que as produziram e continuam capazes de explicar o mundo. A proporção hoje estimada entre aquilo que Kafka escreveu e tudo o que foi publicado sobre ele ronda um para dez milhões. Holland sabe-o. Em vez de acrescentar mais uma interpretação definitiva, aceita que Kafka permanecerá sempre parcialmente indecifrável.

É precisamente essa recusa em fechar sentidos que transforma Franz numa das obras mais estimulantes da realizadora. O filme respira como a literatura do seu protagonista: inquieto, contraditório, aberto ao absurdo e permanentemente desconfiado das certezas. Num tempo em que tantas cinebiografias se limitam a ilustrar factos conhecidos, Agnieszka Holland oferece uma experiência de cinema que prefere pensar a explicar.

Mais do que um retrato de Franz Kafka, Franz acaba por ser um retrato da própria Europa, uma Europa construída sobre memórias, fantasmas, violência política e resistência cultural. É também a confirmação de que Holland permanece uma das cineastas fundamentais do nosso tempo, alguém que continua a filmar não para celebrar heróis, mas para compreender de que modo sobrevivemos aos sistemas que procuram esmagar a condição humana.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
franz-as-metamorfoses-da-europa-ontem-e-hojeMais do que um retrato de Franz Kafka, Franz acaba por ser um retrato da própria Europa, uma Europa construída sobre memórias, fantasmas, violência política e resistência cultural.