Camila Kater: “as mulheres são antes vistas como corpos do que como seres humanos”

Presente no Festival de Animação de Annecy, "Carne" é o mais recente trabalho da brasileira Camila Kater, produzido por Lívia Perez (Doctela, Brasil) e Chelo Loureiro (Abano Producións, Espanha)

(Fotos: Divulgação)

Acho que toda a mulher não vive o corpo que ela tem”. Assim começa “Carne”, um documentário em animação assinado pela brasileira Camila Kater.

Dividido em cinco tomos, cada um deles entregue a uma animadora, em “Carne” observamos técnicas de animação diferentes, “escolhidas a partir das histórias reais das entrevistadas”, para fazer o retrato das mulheres em várias fases da vida, todas elas associadas aos estados da carne durante o cozimento: crua, mal passada, ao ponto, passada e bem passada.

Acredito que frequentemente as mulheres são antes vistas como corpos do que como seres humanos”, disse-nos Camila numa pequena entrevista, citando Simone de Beauvoir.

Estreada no Festival de Locarno e com passagens por alguns dos mais importantes certames mundiais, como o Festival de Toronto (TIFF), o Festival do Documentário de Amesterdão (IDFA) e a Monstra em Lisboa, “Carne” aterrou agora em Annecy.

Como nasceu a ideia de fazer esta curta-metragem e como se processou o casting de cada uma daquelas mulheres que falam da sua vida e experiência?

A ideia nasceu de experiências pessoais e histórias de amigas e mulheres da minha família. O assunto dieta era uma constante em casa e me lembro de me preocupar com meu corpo e meu peso muito nova.

Nós criamos perfis de personagem para casa capítulo/fase do filme. Por exemplo, na fase crua o perfil era uma mulher que foi gorda na infância. Com base neles, partimos para um processo de pesquisa; lançamos um formulário online e também recebemos indicações de amigas. Encontramos 6 mulheres, as entrevistamos e mantivemos 5 no filme.

Ao separar a curta em tomos (crua, mal passada, ao ponto, passada e bem passada) todos eles ligados ao estado da carne, é isso que sente em relação ao papel da mulher na sociedade? Que elas são tratadas como um pedaço de carne?

Acredito que frequentemente as mulheres são antes vistas como corpos do que como seres humanos, como Simone de Beauvoir coloca no “Segundo Sexo”. 

A ideia de corpos a serem consumidos, assim como a carne, é abordada no livro “A política Sexual da Carne” de Carol J. Adams a partir de uma perspectiva vegetariana, assim como a relação que a masculinidade tem com o consumo de carne.

A associação com os pontos de cozimento da carne infelizmente também faz sentido. O corpo envelhece e é como se deixasse de ser mulher. “É uma deformação profunda” diz a grande atriz Helena Ignez no capítulo bem passada. 

O filme é coprodução com Espanha e creio que trabalharem nela cinco animadoras, cada uma escolhendo uma técnica de animação diferente para mostrar as diferentes etapas da vida feminina. Como foi gerir isso tudo e como se processou a escolhas técnicas do estilo de animação. Foi um trabalho muito colaborativo?

A forma da animação apropriou-se do processo documental, pois as diferentes técnicas foram escolhidas a partir das histórias reais das entrevistadas. Cada animadora também tinha uma familiaridade maior com a técnica que trabalharia. Depois da edição das entrevistas com o editor Samuel Mariani, eu e a Ana Julia Carvalheiro escrevemos o roteiro de animação e, ao mesmo tempo, desenhei o storyboard. As animadoras receberam esse material, porém ficaram livres para criar um design para as personagens e fazerem alterações no storyboard. À medida que a gente animava alguns segundos, nós já compartilhávamos entre nós e eu dava meu parecer.

E quanto à forma documental. Alguma vez ponderou fazer num jeito mais ficção que abordasse igualmente essas mesmas fases, ou a ideia sempre foi no género documental?

A ideia sempre foi documentário. Queria muito que as histórias fossem contadas pelas vozes das próprias mulheres.

O filme estreou em Locarno e agora é exibido num dos maiores festivais de animação do mundo. Como foi a recepção em Locarno e por onde tem passado?

Estou muito satisfeita com a carreira do filme, para mim foi uma surpresa, não porque eu não confiava no filme, mas por ser meu primeiro filme como diretora, eu não fazia ideia da dimensão que um curta pode tomar. Locarno foi fantástico, fiquei muito emocionada na estreia, porque foi a primeira vez que vi o filme numa tela grande e também porque o público reagiu muito durante a exibição. 

O filme conta com mais de 70 seleções. Antes da pandemia de Coronavirus, estive em aproximadamente 15 festivais, entre agosto e março viajei muito, estive no TIFF no Canadá, Dok Leipzig na Alemanha, em Zinebi e Seminci na Espanha, Festival dei Popoli na Itália, Festival del Nuevo Cine Latinoamericano de la Habana em Cuba, Festival de Tampere na Finlândia, El Gouna no Egito, IDFA na Holanda, etc. Foi uma grande aventura para mim.

Com a situação atualmente no Brasil e com esse governo têm existido muitas queixas no que diz respeito em apoio para a cultura, nomeadamente o cinema. Essa mudanças afetaram-na a si e em projetos que tinha desenhado na mente para criar?

Com certeza, já me afetaram até mesmo para emissão do CPB de CARNE, que é o certificado de produto brasileiro. Corríamos o risco de perder algumas exibições, porque o conselho da ANCINE responsável pelo certificado foi dissolvido e levou meses para emitirem nosso número. Além disso, antes do sucateamento da agência, havia um apoio financeiro para realizadores de até 5 festivais internacionais de categoria A e B. Conseguimos dois apoios, mas em Toronto recebi um email dizendo que seria o último. Depois disso conseguimos alguns 2 pelo Itamaraty, mas mesmo esse apoio estava mais restrito.

Tenho 2 projetos de curtas esperando financiamento e é uma grande incerteza se teremos editais abertos nos próximos meses. Muitas produções de longas e séries ligadas ao Fundo Setorial do Audiovisual foram paradas devido à nova gestão.

Tem algum um novo projeto em desenvolvimento que poderia nos falar?

Tenho um projeto de curta de animação ficção baseado num dos meus maiores medos quando criança, Jesus Cristo. Estudei num colégio católico e havia um rumor entre as crianças de que o Jesus se despregava da cruz e corria atrás das crianças. A ideia é discutir a iniciação religiosa na infância, a iconografia da Igreja Católica e a representação eurocêntrica de Jesus.

O outro projeto de animação é uma adaptação de um livro infantil espanhol. Também estamos iniciando o planejamento da série antológica CARNE, que abordará muitos outros temas ligados ao corpo e contará com personagens de várias partes do mundo.

Li na sua página que a Camila criou e organiza a LESMA, um evento que conta com o apoio da Monstra (de Lisboa). Como tem sido esse apoio da Monstra e como é a sua relação com esse festival português?

Eu e o Samuel Mariani, egressos do curso de Midialogia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) criamos a LESMA (La Extraordinária Semana de Mostras Animadas) em 2016.

Há 4 edições realizamos uma semana dedicada à animação independente na Unicamp, onde exibimos mostras de festivais de animação nacionais e internacionais, com convidadas e convidados especiais, workshops, mesas de debate e um laboratório  de projetos em desenvolvimento chamado LESMA Lab. 

Wilson Lazaretti, professor de animação no Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e também fundador do Núcleo de Cinema de Animação de Campinas, organiza o evento connosco e é um grande amigo do Fernando Gaurito, diretor artístico da Monstra. 

A nossa primeira edição contou com sua presença e com mostras desse lindo festival português. Nunca fui à Monstra pessoalmente, porém, esse ano “Carne” fez parte da competição oficial de curtas. 

Link curto do artigo: https://c7nema.net/t5l2

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