O filme faz parte da Competição Portuguesa do IndieLisboa e tem sessões a 3 e 7 de maio no Cinema São Jorge e no dia 9 no Cinema Ideal. O C7nema conversou com o realizador Pedro Ramalhete, cujo trabalho de estreia aborda as dores e as delícias de se fazer cinema em Portugal.
Tudo gira à volta de personagem João (Henrique Gil), um slacker, desempregado e distraído que, após reencontrar uma colega do curso de cinema (Júlia Valente), vai parar à produção de um filme. Mas a vida de assistente nada tem de glamour hollywoodiano e, entre desejos e fantasias pouco realistas, vai equilibrando-se nas tarefas — não sem que lhe aconteça um sem-número de desastres.
Um dos eixos do filme é uma espécie de relação entre a saída do adolescente, no caso dele uma saída muito lenta, e a interligação com a fantasia do cinema. Acha que o desejo de fazer cinema também passa por isso, por sonhar como um adolescente, com os pés pouco fincados na terra?
No meu caso muito particular, o desejo de ser realizador de cinema vem desde bastante novo. As primeiras ideias que temos quando pensamos em fazer filmes não são coisas reais, são ganhar Óscares, conhecer e trabalhar com grandes estrelas. Se calhar, no meu caso, era fazer o Indiana Jones.
A idade avança e vamos percebendo que as coisas não são bem assim no nosso mercado. Acho que a personagem João é um pouco isso: uma pessoa que está a sair da escola de cinema, que já tem mais de 20 anos e ainda tem essa fantasia de que o cinema é glamour. E depois encontra pessoas reais, que já têm experiência sobre o que é fazer cinema. Há esse embate entre a idade adolescente e a adulta.
Numa das primeiras aparições ouve-se uma voz que diz: “olha que vais chegar tarde à entrevista de emprego”. É alguém sem muita estrutura…
A ideia era trabalhar a figura de alguém da mesma idade que chama a outra para trabalhar, alguém com rumo, com casa, com sentido de responsabilidade — criando assim um contraste com esta personagem que é um slacker.
Depois há uma questão fundamental na vida de qualquer adolescente: o desejo de ter uma namorada. No caso dele, isso também surge, ainda que de forma difusa. O amigo diz-lhe: “Voltaste a fugir?”, sugerindo essa dificuldade em lidar com o assunto. No fundo, tudo se mistura — o impulso de fazer cinema e o desejo por alguém.
Sim, a ideia do filme era frustrar expectativas, e uma delas passa por essa aproximação romântica. O que se constrói é quase mais uma camada de ficção na cabeça da personagem: o sonho de fazer um filme, ganhar um Óscar e viver aquele beijo melodramático.
Mas esse encontro torna-se antes mais uma barreira — confronta-se com alguém muito mais madura, que percebe que não se trata de um beijo ou de um prémio. Trata-se de algo mais concreto: encontrar um lugar, uma espécie de família, pessoas que façam sentido e deem suporte ao seu mundo. No fundo, essa ideia de consumação amorosa é apenas mais uma ficção.
Mas também existe aquela mulher específica.
Poderia ser outra. Cruza-se com ela, então é ela. É mais uma ideia de amar o amor do que amar uma pessoa.
A personagem faz uma espécie de terapia, mas o que vemos não é uma psicóloga, mas uma câmara. O cinema também é uma espécie de terapia?
Aquilo funciona quase como uma terapeuta para mim — com todo o respeito pela minha terapeuta. Pode haver essa dupla leitura: o cinema como espaço onde reencontramos ideias sobre a vida, sobre nós e sobre as outras pessoas.
Há uns tempos estive em Berlim, na comitiva de um filme em que trabalhei, e nesse ano Martin Scorsese foi homenageado. Lembro-me da frase escolhida: “Tudo o que aprendi na vida foi através do cinema.” E sinto que tanto esta personagem como eu próprio temos alguma relação com isso.
A câmara representa esse conhecimento inconsciente — o cinema enquanto meio e reflexo do que se passa na cabeça desta pessoa.
O momento mais duro talvez seja aquele em que está a ensaiar os diálogos com o ator, que é o Luís Lucas…
Sim, acho que sim. A ideia é vê-la entrar, de certa forma, nessa personagem — não a do filme dentro do filme, mas uma que ressoa com a sua própria vida. Aquele texto é o momento mais direto desse processo.
O filme também aborda as dificuldades de fazer cinema em Portugal. Há uma referência a Xavier, de Manuel Mozos…
Sim, é um filme de que gosto muito. O nome surgiu naturalmente e acabou por se cruzar com o de Manuel Mozos. Foi uma coincidência feliz.
Há aquela figura do produtor que diz: “Isto é a magia do cinema.” Há relação com figuras reais?
O filme é feito dessas pequenas coisas que vamos ouvindo. Há um lado de arquivo, mas mais mental. Venho da área técnica do cinema e fui conhecendo muitos técnicos, produtores e atores — tudo isso alimenta o filme.
Pensando nos jovens e estudantes de cinema, como acha que podem relacionar-se com esta experiência?
Depende muito. Há quem seja mais ingénuo e quem perceba mais cedo que a realidade é difícil.
Tenho interesse em mostrar o filme a pessoas mais novas, para abrir diálogo sobre o que é realmente fazer cinema em Portugal. Não é sobre glamour, é sobre lutar por uma ideia.
Em Portugal, os cineastas que ultrapassaram fronteiras pertencem sobretudo ao cinema de autor — como Manoel de Oliveira, João César Monteiro, Pedro Costa ou Miguel Gomes. Não tem relação com o modelo de Hollywood, mas com o circuito de festivais.
O cinema comercial português dificilmente compete com o modelo americano — não por falta de qualidade, mas por contexto de produção.
Por isso destacam-se os realizadores de cinema de autor, que seguem o seu caminho e acabam por colher reconhecimento. Isso cria identidade e é importante que os jovens percebam que podem procurar a sua voz.
Também utiliza um registo naturalista…
Evitei o artificial: o cinema é ilusão, mas procurei uma aproximação à realidade, com a câmara a observar.
Os únicos elementos mais exagerados são as personagens do realizador e do produtor. De resto, tentei que tudo fosse o mais natural possível.
O filme tem circulação em festivais e integra a secção Smart 7. E em Portugal?
É sempre um mistério. Ainda estamos a definir estratégia. Vamos ver como corre no festival e depois decidir.
Já tem novos projetos?
Sim, tenho vários. Uma curta em pós-produção e outras ideias. Mas o futuro depende sempre dos apoios.

