Revisitando Newport: “A América é feita de imigrantes; essa é a sua beleza”

(Fotos: Divulgação)

Newport and the Great Folk Dream, presente na secção IndieMusic, tem sessões no IndieLisboa nos dias 2 (Culturgest) e 4 de maio (Cinema São Jorge). O C7nema entrevistou o realizador Robert Gordon.

O filme habita terreno familiar para quem conhece a história do rock. O folk foi uma das grandes vias do fenómeno a partir dos anos 60 — inicialmente operando segundo as suas tradições mais antigas, para depois entrar em definitivo na fusão com o rock, particularmente nas pegadas do impacto da beatlemania. Newport, segundo a memória coletiva mais icónica, foi o lugar onde os puristas vaiaram Bob Dylan por aderir à guitarra elétrica.

Mas o filme de Gordon, apresentado na última edição do Festival de Veneza, traz muito mais do que Dylan, Joan Baez ou Johnny Cash: a obra é um mergulho na América profunda através de imagens do festival captadas na própria época. E aqui a espontaneidade é surpreendente: gente de todas as cores (relevante na América do “apartheid” ainda presente) e proveniências protagonizava uma mostra vibrante de uma verdadeira cultura popular — não mediada pela indústria. Tudo sob o signo da diversidade. Sobre esta, aliás, o realizador fez questão de salientar a importância de lembrar hoje que a América é um país de imigrantes — e aí reside a sua beleza.

Para além deste tema, o C7nema explorou com Gordon dois momentos fundamentais de Newport and the Great Folk Dream: um é a história, nem tão conhecida assim, de que as diferenças ideológicas entre Albert Grossman, empresário de Bob Dylan que levava o folk para as massas, e Alan Lomax, icónica figura da musicologia americana interessada na pureza das raízes, terminaram com ambos a envolverem-se numa luta física. O outro, claro, é a eletrificação do folk — onde quem surge a romper o purismo não é Dylan, mas Mike Bloomfield, guitarrista dos Paul Butterfield Blues Band.

Robert Gordon | Créditos Jacopo Salvi La Biennale di Venezia – Foto ASAC

Quando pensamos em Newport, o que nos vem à mente é Bob Dylan, os grandes protestos, as lutas pelos direitos civis. Mas o que mostra no seu filme é algo completamente diferente. Especialmente no início, era um grande palco para uma mostra de produção cultural popular. Havia amadorismo, espontaneidade e até instrumentos inventados…

Antes de mais, sobre o facto de o filme ser diferente daquilo que o público pode esperar.

Tínhamos cerca de 70 a 80 horas de material para trabalhar. Interessava-nos usar as “estrelas” de forma semelhante à maneira como o próprio festival as utilizava — ou seja, atrair o público com nomes como Bob Dylan, Johnny Cash ou Joan Baez. Mas, uma vez captada a atenção, queríamos introduzir outras coisas, tal como o festival fazia. De certa forma, essa era a nossa mensagem, enquanto realizadores, para o público.

Logo nos primeiros minutos incluímos uma versão de Michael, Row the Boat Ashore, uma canção muito popular em campos de férias nos Estados Unidos durante décadas, mas que nunca foi cantada daquela forma nesses contextos. A versão que escolhemos — dos Moving Star Hall Singers — funcionava como um sinal para o espectador: pode esperar algo familiar, mas o filme vai levá-lo noutra direção.

Nesta mesma linha, o festival traduzia na época algo que é tão reivindicado hoje — a diversidade. Mesmo numa época em que a convivência racial ainda era tensa, no festival a diversidade não só era tolerada como desejada a nível de organização. Concorda?

À primeira vista, o filme pode parecer um documentário musical, mas procura mostrar como a diversidade alimenta a democracia. São pessoas com interesses, origens, histórias e estilos distintos que, juntas, formam uma espécie de mosaico, um tecido coletivo rico e complexo. Isso tornou-se evidente desde o primeiro momento em que começámos a ver o material.

Percebia-se claramente que o festival reunia pessoas de contextos muito diferentes — urbanos, rurais, ligadas à terra ou à água, vindas de vários países. Para nós, era importante transmitir essa ideia, sobretudo num momento em que essa lembrança se torna necessária nos Estados Unidos: a de que o país é, como diz uma das pessoas participantes do filme, uma nação de imigrantes. E é precisamente isso que a torna bela. A música, que atravessa todo o filme, reforça essa ideia — lembrando-nos da alegria e da força que podem nascer da diversidade.

O filme também mostra uma entrada na América profunda, uma realidade distante dos centros urbanos que monopolizavam a divulgação da cultura…

Este filme representa aquilo a que podemos chamar uma “América profunda”. Vai além da superfície. A América é como um solo fértil: precisa de múltiplas influências e elementos para se tornar rica, tal como uma nação precisa de diversidade para construir a sua cultura. Era isso que estávamos a tentar celebrar.

De certa forma, foi frustrante ver como a política do momento acabou por se tornar cada vez mais relevante para aquilo que estávamos a fazer. A nossa intenção era apenas recordar que a diversidade alimenta a democracia, mas essa lembrança acabou por se tornar, por si só, uma declaração política. Acho que isso era tão importante para a organização do festival como foi para nós.

Reuniram músicos muito diversos: tocadores de banjo, artistas como Joe Patterson com instrumentos de sopro artesanais, música havaiana, cantoras de Cape Breton… até músicos da Luisiana a cantar em francês. Tudo isso contribui para a ideia de um mosaico — o mosaico que define o país.

Há uma história muito singular sobre o confronto físico entre Albert Grossman e Alan Lomax…

Há sempre correntes de pensamento em confronto dentro de qualquer movimento, e o folk não foi exceção. Albert Grossman queria comercializar a música folk e levá-la a um público mais amplo, enquanto Alan Lomax defendia a sua preservação.

A tensão chegou a um ponto em que se tornou física — há relatos de uma luta entre ambos em Newport. Foi uma manifestação literal das suas divergências filosóficas.

Lomax continuou a documentar e a divulgar expressões culturais, promovendo artistas como os Moving Star Hall Singers e os Georgia Sea Island Singers. Já Grossman apostava na vertente comercial, tendo ajudado a formar os Peter, Paul and Mary.

O debate sobre a eletrificação do folk também ganha contornos interessantes…

Era algo inevitável. Um dos comentadores do filme lembra que os movimentos contêm muitas vezes as sementes da sua própria transformação.

A tecnologia não pode ser contida. Quando Bob Dylan pega na guitarra elétrica, Muddy Waters já tocava blues elétrico há décadas. E The Beatles tinham levado esse som ao centro da cultura popular.

Dylan pode ter sido brusco, mas não estava sozinho: no mesmo dia, Paul Butterfield e Mike Bloomfield já tinham apresentado um concerto elétrico intenso. No ano anterior, Johnny Cash e Carl Perkins já usavam guitarra elétrica.

O mais interessante em Maggie’s Farm é que a canção mantém a tradição folk ao mesmo tempo que a transforma, baseada em Penny’s Farm, mostrando como Dylan preserva e faz avançar essa herança.

Para terminar, sentimos um enorme privilégio em poder construir a seleção musical do filme. Há uma riqueza imensa de material, e uma das maiores conquistas foi reunir tantas formas diferentes de música de maneira coesa. No fundo, o filme funciona como uma experiência imersiva — um mergulho prolongado numa fonte profunda de música folk.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/ndzs

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