Com estreia mundial na principal competição do Festival de Cinema de Animação de Annecy, que decorre este ano de forma híbrida, depois de em 2020 ter enfrentado a pandemia apenas num formato online, “Lamya’s Poem” é uma ode multidimensional aos refugiados da Guerra Civil Síria (2011- ), enquanto paralelamente serve também de estudo, inspiração e reflexão sobre o famoso autor persa Mowlana Jalal ad-Din Balkhi Rumi (1207-1273).
Em 2016, Lamya, uma menina síria de 12 anos, é obrigada a sair da sua cidade, Aleppo, após os bombardeamentos e a chegada de tropas hostis. Apesar de ter perdido um livro de poesia do poeta Rumi, que o seu professor lhe ofereceu, ela reencontra-o quando a sua mãe decide partir, iniciando aí uma viagem mágica, entre a realidade e dureza do percurso de migrantes em fuga à guerra, e um “portal” mágico que a leva à história do jovem Rumi, também ele um migrante em fuga na sua infância com a família, pouco antes da invasão mongol, que devastou a Ásia Central e grande parte do Médio Oriente.
“É um filme onde impera o realismo mágico”, disse-nos (via Zoom) o realizador em estreia na direção de filmes de animação Alex Kronemer, escritor, palestrante, argumentista (Bilal: A Lenda, 2015), documentarista (The Sultan and the Saint) é uma das vozes norte-americanas mais focadas na diversidade religiosa, no Islão e na compreensão intercultural.

“A ideia surgiu após descobrir uma série de refugiados sírios que liam poesia uns aos outros em Atenas”, explicou-nos, acrescentando que quando começou a trabalhar na poesia e em Rumi, para tentar perceber porque razão este autor interessava tanto a esses refugiados, “descobriu semelhanças na sua juventude” às notícias que iam sendo lançadas na pior fase da crise de refugiados síria: “Ele foi um refugiado quando era jovem, teve que fugir com a família [cujo pai era um respeitado clérigo e professor] dos mongóis”.
O próprio nome-título, Lamya, foi também inspirado numa personagem real, neste caso uma menina síria, e todos estes elementos foram se formando numa colaboração onde foram igualmente fulcrais o diretor de animação Brandon LLoyd, da PIP Animation Services Inc., e o produtor Sam Kadi, o qual também nos acompanhou via Zoom.
Nascido na Síria e emigrante nos EUA, para Kadi o filme é particularmente especial, mas a ideia é que ele seja abraçado globalmente e “não apenas pelos refugiados sírios, que agora estão espalhados por todo o mundo”.

Para ele, “o mundo falhou para com a Síria”, relembrando que esta é uma das nações mundiais com maior história e património para a humanidade. ”Esta guerra não foi uma perda só para a Síria, foi para toda a humanidade (…) foi por aqui que nasceu o alfabeto, deram-se os primeiros acordes musicais”, diz-nos emocionado, mas sempre esperançoso para com o futuro, até porque “os refugiados sírios têm demonstrado o seu valor em todo o mundo: na Alemanha, na Holanda, no Canadá. Estão espalhados por todo o lado”.
Embora repleto de emoção, dada a temática, o filme nunca procura ser o que chamamos de “tearjerker”, notando-se em Alex Kronemer uma contenção na busca da lágrima fácil. Um dos melhores exemplos é o final, que facilmente seria terreno para o filme cair no melodramatismo exagerado. Alex confessa: “É curioso falar nisso, pensei muito no final”, reconhece, tentando simultaneamente fugir aos clichés e estereotipos de como o mundo muçulmano e o Islão é retratado no cinema, como um estudo recente revelou com números concretos.
Uma dessas preocupações, de fugir aos lugares comuns, foi no próprio tratamento visual de Lamya, uma menina facilmente identificável e capaz de criar empatia em todo o mundo (uma criança como qualquer outra, sempre de jeans, ténis e uma mochila), mas igualmente no trabalho da banda-sonora, onde se tenta escapar “ao exotismo frequentemente apresentado quando se retrata o Médio Oriente”.

Explicando igualmente as opções técnicas da equipa de trabalho do filme, Alex menciona a utilização diferente de estilos e um trabalho específico na direção de arte em cada um dos mundos e tempos que percorremos nesta jornada: o momento atual, da crise síria; o do passado, com o jovem Rumi, também ele a fugir dos Mongóis; e o mundo dos sonhos (e pesadelos), no qual ambas as personagens coabitam, combatem os monstros partilhados, ajudando-os a sobreviver às provações do mundo real e a atingir objetivos cruciais na vida.
Alex explica-nos que um dos fundamentos gerais do seu filme era fazer uma ligação entre as pessoas dos sonhos de Rumi, que requerem a sua ajuda, seriam “na verdade os refugiados naquele acampamento em Atenas” centenas de anos depois, e que nessa transição entre o atual, o passado e o mundo dos sonhos, a transição musical também seria compacta “sem exotismos” .
Quanto ao futuro, e depois de Lamya’s Poem, Alex confessa-nos que entre alguns projetos que têm sempre nas mãos (“temos sempre muitos, como imagina), existe um “com um tema muito atual”, ecológico, inspirado numa antiga história folclórica muçulmana. Com o nome “The Animals’ Lawsuit Against Humanity”, esta é uma verdadeira fábula inter-religiosa e multicultural, “de compreensão”, que encaixa na perfeição no currículo de Alex.
No conto, representantes de todos os membros do reino animal – “não faltando o Urso Polar, que se tornou um símbolo das questões climáticas” – vão perante o Rei Espírito para reclamar o tratamento terrível que têm sofrido nas mãos da humanidade, originando um julgamento onde humanos e animais testemunham perante o rei, argumentando os seus pontos de vista de maneira engenhosa, ilustrando ambos os lados do debate ecológico.

Ainda na “fase de desenvolvimento” e com a certeza que teremos “animais falantes”, não se podem adiantar datas para a evolução da produção, mas o projeto está em marcha. Além do mais, Alex e Sam certamente terão muito que falar de “Lamia ‘s Poem” depois da sua estreia em Annecy, a primeira data de uma “tour” que promete ser longa.
“Lamya’s Poem”, apresentado em em 2D, embora existam muitos elementos 3D incorporados, faz parte da biblioteca de títulos da WestEnd Films, que também negociou globalmente “The Breadwinner” (A Ganha Pão) e “Song of the Sea”.
Prevê-se um mercado agitado para a WestEnd Films já nas exibições pré-Cannes, de 21 a 25 de junho.



