Em plena renovação da Constituição espanhola, em 1978, já no fim do franquismo (1939-1975), três filmes daquele país conquistaram o Urso de Ouro na Berlinale: a curta Ascensor, de Tomás Muñoz, e as longas Las Palabras, de Emilio Martínez Lázaro, e Las truchas, de José Luis García Sánchez. Tratou-se de uma tomada de posição do júri alemão, então presidido pela escritora Patricia Highsmith. Esse momento histórico parece ecoar agora na presença espanhola no Festival de Cannes de 2026, em especial com La Bola Negra, que provocou forte comoção na Croisette. Viridiana (1961), de Luis Buñuel, foi durante décadas o único filme espanhol a conquistar a Palma de Ouro, apesar de nomes como Carlos Saura, Pedro Almodóvar e Víctor Erice terem sido distinguidos com outros prémios no festival.
Os versos “Verde que te quiero verde”, de Federico García Lorca, iluminam La Bola Negra como um presságio antigo, quase um sussurro vindo das paredes húmidas da memória espanhola, num filme que celebra a coragem queer. A sua trama entrelaçada rasga uma ferida histórica — a da homofobia — com um olhar carregado de melancolia. Evocam-se Francisco de Goya e Pablo Picasso, cada um com a sua paleta e o seu sangue derramado, diante do febril trabalho de luz na direção de fotografia de Gris Jordana.
La Bola Negra constrói-se como um poema visual, de mãos dadas com a memória e o legado de Lorca, sobre o peso da herança emocional e política do trauma franquista. Cada enquadramento parece contaminado por um passado que nunca desaparece. “La pena negra, raíz del llanto”, escreveu o poeta, demarcando o peso do silenciamento. Daí o filme assumir um tom ruidoso, elevado, quase em grito.
A 16 de agosto de 1936, García Lorca foi retirado à força da casa de amigos, em Granada, numa operação do Governo Civil que cercou um quarteirão. Segundo o historiador Ian Gibson, seu biógrafo, foi acusado de espionagem, de contactos com os russos e de homossexualidade. Transferido para Víznar, passou a última noite num cárcere improvisado. Foi executado a tiro, numa repressão ligada também à sua orientação sexual.
A presença de Lorca atravessa La Bola Negra. Há uma dimensão fantasmagórica na forma como Javier Ambrossi e Javier Calvo observam as suas personagens. As casas parecem túmulos habitados; tudo surge contaminado pela perda. O argumento evoca o universo trágico de Bodas de Sangre e Yerma, onde o desejo se confronta com estruturas opressivas. Como escreveu Lorca: “El más terrible de los sentimientos es el sentimiento de tener la esperanza muerta.”
Ainda assim, há esperança. La Bola Negra transforma o desejo, através de três núcleos queer distintos, em matéria de resistência. Tudo parte de um jovem que recebe a notícia da morte do avô — figura que atravessa diferentes tempos narrativos, sempre sob a sombra de Lorca.
Os realizadores evitam a biografia convencional para construir uma narrativa de fôlego épico — uma épica queer. Apropriam-se do imaginário lorquiano para criar uma identidade profundamente espanhola. A realização, meticulosa, faz do ruído e do estrondo um princípio estético. O desconforto torna-se o chão de uma viagem que atravessa décadas, dos anos 1930 a 2017, optando por permanecer dentro da ferida histórica.
O elenco inclui Glenn Close, numa participação marcante como estudiosa da História movida pela luta contra a homofobia após o suicídio do irmão, e Penélope Cruz, numa sequência que evoca La caduta degli dei (1969), numa afinidade estética com Luchino Visconti. Sem concessões, a montagem de Alberto Gutiérrez revisita o passado ao ritmo pulsante da escrita de Lorca.




















