Dizer que o cinema de horror norte-americano perdeu a sua sofisticação é ignorar por completo marcas como James Wan e o seu “The Conjuring”, além de seus milionários derivados “The Nun” e “Annabelle”, sem contar sazonais (boas) surpresas como a iguaria gore “Terrifier”, de Damien Leone. Esses bons exemplos, contudo, não isentam Hollywood – e a seara indie dos EUA – da cobrança pela inabilidade de ser sutil na condução das ferramentas de um género que assume a perversidade (por vezes em sua fronteira mística) como o seu objeto.
Filmes que exploram o medo transformaram-se quase pornográficos na exposição gráfica da brutalidade e do terror, sem considerar que mesmo os exercícios mais linha B do giallo italiano ou das sagas vampíricas da produtora inglesa Hammer conseguiam ser charmosos antes de o sangue espirrar. Foi por conta dessa desmesura que uma longa-metragem calcada na subtileza (mas nada além disso) como a dinamarquesa “Gæsterne” – lançada internacionalmente como “Speak No Evil”, em Sundance, em 2022, pelo cineasta Christian Tafdrup – alcançou notoriedade, sendo encarada como um exercício de realização mais assustador – e até inovador – do que de facto é. Tafdrup impressionou a crítica (e os estúdios) por criar (e manter) uma atmosfera sombria e tensa. Não vai além dela, raramente entrega aos fãs do filão horrorífico os sustos esperados e desperdiça oportunidades de criar sequências cinemáticas (onde tudo se resolve pelo movimento, como se vê em pérolas como “Malignant”). Apesar disso, os seus enquadramentos são requintados e a sua forma de “cozinhar” a tensão, retardando a(s poucas) surpresa(s), é eficaz. Fora isso, há na película a deixa dramatúrgica de se explorar a monstruosidade que reside em aparentes boas intenções. Ou seja, há virtude, mas nada que justifique a gama de elogios destinados a Tafdrup e a sua dinâmica de narrar, que foi solenemente esquecida no remake da sua criação, feito sob a encomenda do Midas do terror de baixo orçamento Jason Blum. Sobrou apenas a premissa.
Rodado na Croácia, com algumas sequências no Reino Unido, o “Speak No Evil” de Blum teve a sua realização confiada ao inglês James Watkins, realizador de títulos eficientes, como “Eden Lake” (2008) e “Bastille Day” (2016). o seu cinema não tem marcas autorais detectáveis (ainda), tampouco a sua obra em séries (como “McMafia” e “Black Mirror”), mas ele é sagaz no diálogo com as cartilhas do pânico, entregando (e bem) o suspense quando este é necessário. A releitura que propõe de “Gæsterne” ignora por completo a contenção proposta Tafdrup. Na primeira hora, ele até consegue trabalhar bem com o dispositivo da sugestão, plantando pequenos conflitos em vez de explodir os confrontos. Porém, pouco a pouco, desiste da elegância e abre-se para o frenesim, aproveitando a habilidade do ator James McAvoy em interpretar bestas animalescas, vide seu desempenho no “Split” (2016), de M. Night Shyamalan.
Quem estiver interessado em ver um horror movie de violência incontinente, terá um prato cheio em “Speak No Evil”, mas terá de aturar situações quase caricatas quando a vilania perde o controle. O próprio McAvoy por vezes exagera. Perde-se a mesura também na forma como Watkins tenta desconstruir os arquétipos da masculinidade, espatifando-a a um limite quase risível na figura do “pai de família” construída por Scoot McNairy, como se fosse um ratinho acuado, sempre derrotado, sem viço.
Fiel à “comédia humana” de erros criada por Tafdrup, o “Speak No Evil” de Watkins custou 15 milhões de dólares, que é o saldo convencional dos projetos de Blum. Na trama, os americanos Louise (Mackenzie Davis, sempre impecável) e Ben (McNairy) mudam-se com a filha, Agnes (Alix West Lefler), para Inglaterra e viajam Europa adentro, sazonalmente, empenhados em resguardar um casamento falido. Ben descobriu uma infidelidade da sua companheira e não consegue dar o perdão que o matrimónio – sob ditames morais – exige. Num passeio pela Itália, eles cruzam-se com o casal Paddy (McAvoy) e Ciara (Aisling Franciosi), cujo filho, Ant (Dan Hough), tem muita dificuldade de sociabilização, por problemas na fala. O pai e a mãe do miúdo, contudo, são um poço de vivacidade e paixão, o que atrai os Dalton.
Pouco depois desse encontro, Paddy e Ciara enviam uma carta a Louise e Ben, convidando-os a visitar a sua casa no campo. O convite é aceit4, a viagem acontece, mas o reencontro é cercado de situações bizarras, uma vez que os anfitriões têm uma forma selvagem de lidar com o sexo, o álcool, a verdade e o próprio filho, que recorre à pequena Agnes para expor as agressões de que é vítima. Há incidentes que chegam a evocar “Get Out” (2017), de Jordan Peele, ainda que sem o componente do racismo. A estranheza, contudo, é bem parecida com a de Peele. Minuto a minuto em “Speak No Evil”, um quadro de perigo extremo vai sendo pintado até que Watkins pisa fundo no acelerador do thriller e faz tudo descambar para um jogo bruto do gato e rato, com armas, quedas e pedradas.
É o modo Blum de ser e de produzir, pois os seus filmes, mesmo aqueles de maior inteligência (como “The Black Phone”), preservam uma essência de fast food para dar lucro. Logo, a luta dos Dalton pela sobrevivência funciona como espetáculo comercial, mas não vai além disso, afogando todos os debates comportamentais esboçados (sobretudo o da fragilidade dos homens). Tecnicamente, a competência exigida por Blum faz-se notar – e aplaudir. A fotografia de Tim Maurice-Jones sabe explorar o chiaroscuro com requinte e consegue sempre fugir da obviedade, o que assegura potência plástica a uma narrativa que descamba para um clímax de ação genérico.
Se na longa Escandinava havia uma manifestação diabólica só explicável por psiques fraturadas, o que garantia uma tónica quase psiquiátrica à versão de Tafdrup, a sua recriação à moda americana prefere falar da bandidagem mais corriqueira, sem nada de muito profundo no seu retrato dos vilões, reduzidos a meros criminosos. Sobra a Watkins uma única discussão de pé: a reflexão sobre a maldade que pode se esconder por trás das boas intenções.





















