
Em “Eden Lake”, as atenções viram-se para o retrato de um novo fenómeno muito presente na Grã Bretanha actual: a violência incontrolada levada a cabo por grupos de bullies – jovens, sobretudo de zonas suburnanas, que provocam desacatos em típicos rituais adolescentes de afirmação.
Agora, quando o terror encontra um território virgem para a ficção de que forma resolve explorá-lo? O que é o novo factor de ameaça, o grupo de bullies, é exponenciado e erigido a uma “Ameaça” com maiúscula. Os seus alvos, as vítimas, são no caso, um casal de classe média alta que resolve ir passar um fim de semana tranquilo no paraíso resguardado que é Eden Lake. O que começa então por ser um incidente próprio de rebeldes adolescentes a irritar pessoas mais velhas escala numa perseguição violenta de vida ou morte.
É bom de ver que a simples sinopse de “Eden Lake” indicia uma fórmula. Os seus primeiros minutos apenas confirmam isso. Não há que enganar, o único elemento novo, que encaixa menos, é precisamente essa nova corporização das forças do mal. O que nos leva à discussão inicial. Como lida geralmente a sétima arte com um novo universo? A estratégia mais segura para trazer ao grande ecrã um fenómeno novo é certamente rodeá-lo de elementos reconhecíveis. Por isso, na obra de Watkins tudo nos soa a dejá vu. Como se fosse necessário uma planície de superficialidade para reconhecer uma ilha de originalidade.
“Eden Lake” confirma assim que a originalidade da premissa de uma obra pode ser uma armadilha. Ou por outra, a originalidade como ponto de partida, e não de chegada, pode contaminar o todo e caminhar rapidamente para um clichet artístico. Partindo do que é original para chegar ao vulgar.
Mas mais do que isso. Se o embrulho de uma nova realidade for feito, como é o caso, num preparado de clichets, o que pode ser uma estratégia de facilitismo pode levar a resultados improvavelmente delicados. Porque caminhar por clichets é caminhar por concentrados de ideias que por vezes dão passos maior do que as pernas.
Queremos com isto dizer que a superficialidade da caracterização dos universos em contraposição: o universo ameaçador/ameaçado ou bullies/casal de classe média acaba por se fazer, ou indiciar, como uma batalha de classes. Desta forma, o verdadeiro terror de “Eden Lake” é o da possibilidade afrontosa do espectador extrair uma justificação moral simplista para a violência dos jovens em causa. Pensar que a origem do seu mal está na educação e ambiente familiar que os rodeiam. Como escandalosamente sugere o final do filme.
O que se pede ao espectador avisado é que consiga ver para além do que nos é dado e que a sua inteligência rapidamente esqueça o que “Eden Lake” acaba por exemplificar. Que é: “vejam o que vos pode acontecer, pessoas de classe média se viverem em ambiente típicamente suburbano. Vejam como eles vivem e no que se tornam.”. Ver a outra classe como o “mal”, ainda que passe com uma certa estratégia de identificação de “Eden Lake” com o seu público alvo que é a classe média, é um passo descuidado de quem lida com clichets como meras peças de lego.

