Quando o dinamarquês Christian Tafdrup estreou o seu “Speak No Evil” no Festival de Sundance, ele explicitamente admitiu que tudo o que queria fazer era criar um filme que deixasse o público extremamente desconfortável. Uma tarefa que concretizou com engenho na forma de uma tensa sátira que vai ganhando contornos grotescos quando a educação e as boas maneiras de Bjørn (Morten Burian) e Louise (Sidsel Siem Koch), um casal dinamarquês os torna num alvo fácil de outro casal que conheceram numas férias em Itália.
Depois de um convívio aprazível na Toscana, a dupla é convidada por Patrick (Fedja van Huêt) e Karin (Karina Smulders) para visitarem a sua casa nos Países Baixos, para onde partem com a sua filha, Agnes (Liva Forsberg), de quem o silencioso filho do casal dos anfitriões, Abel, diz “ter muitas saudades”.
Desde os primeiros momentos de “Speak No Evil”, muito por culpa de uma banda-sonora que incute um contraste sinistro perante as imagens belas que vislumbramos, que o espectador tem a clara sensação que algo de terrível vai acontecer, e o maior engenho de Tafdrup é prolongar esse sentimento até ao final do seu filme, apenas e só fornecendo pequenas mostras comportamentais ambíguas que deixam espaço para a nossa sugestão. Assim, serão os momentos estranhos proporcionados pelos anfitriões apenas uma forma reveladora da paranóia por parte dos nossos convidados, ou serão dicas, pequenos teasers, reveladores que as suas intenções são nefastas?
É nessa dúvida permanente que o filme de Tafdrup triunfa, deixando o espectador preso entre o estar com os nossos convidados por “etiqueta” social, ou de preferir seguir os seus instintos que lhes dizem que algo não bate certo e devem partir.
O certo é que quando chega o último terço de “Speak No Evil”, o espectador é atropelado por um sentimento de impotência e frustração gritantes, o qual – juntamente com o tom de thriller satírico – nos remete imediatamente para o cinema de Haneke, em particular as suas “Brincadeiras Perigosas”, mas num ato de confirmação pesaroso como o que George Sluizer nos deu no seu “Spoortoos- O Homem que Queria Saber”.





















