Na primeira vez que falamos com Rúben Ferreira, em 2012, ele tinha apenas 18 anos. A ocasião era o seu filme “O Lenhador Assassino 3”, que conta atualmente com mais de 213 mil visualizações no Youtube.
Oito anos depois, voltamos a conversar, desta vez sobre “Em Nome da Lei“, um projeto de filme inacabado de 2018 que agora – em tempos de pandemia e falta de trabalho no sector – foi transformado em episódio piloto de uma série. As visualizações? Cerca de 150 mil desde o dia 25 de maio, mais uma vez no Youtube, sob a chancela Dark Studios.
Na linhagem dos seus trabalhos anteriores, como o famoso “Estrondo” (3 milhões de visualizações), esta nova comédia policial acompanha um grupo de agentes que tentam manter a ordem (ou desordem) de uma maneira muito particular.
Com o desejo de encontrar apoios para fazer mais 2 episódios, Rúben falou novamente connosco sobre o seu trabalho e ambições.
Em 2012 perguntamos-te “O que te atrai para fazer cinema?”. Agora em 2020 a questão é: “O que te motiva a continuar neste mundo de fazer filmes e – neste caso – de episódios de uma série?
O que me motiva é, sem dúvida, a paixão que tenho por realizar e passar as ideias que tenho na cabeça para o ecrã. Sinto que não ter dinheiro ou meios não pode ser uma desculpa. Nada me impede de pegar na minha câmara, escrever uma história e tentar torná-la realidade com os meus amigos. Além disso, fazer filmes desta forma ajuda-me a crescer enquanto filmmaker e videógrafo. Obriga-me a pensar fora da caixa e a estar sempre a encontrar soluções para os problemas que uma produção sem meios traz constantemente. Alimenta e faz crescer a minha resiliência.
O Youtube continua a ser a tua plataforma alternativa preferida para expor o trabalho. De 2012 para cá apareceram outras plataformas de streaming, como Netflix e HBO, Achas que isso é benéfico para pessoas independentes e “amadoras” como tu, ou na verdade está tudo na mesma já que a aposta deles em produtos nacionais é fraca ou nula? É que paralelamente a esse crescimento do streaming, certas televisões – como a SIC Radical -, que apostavam em conteúdos alternativos como este, perderam força.
Os filmes/séries que faço são mesmo por paixão pela área e não para ganhar dinheiro. Aliás, na maioria das vezes, perco dinheiro. O Youtube, sendo uma plataforma gratuita e acessível a tanta gente, parece-me o local indicado para colocar as minhas obras. Ainda por cima, já acumulámos milhares de subscritores ao longo dos anos nesta plataforma.
Não gosto de ter uma ideia e ter que esperar anos para a concretizar. Já tentámos que outras plataformas adquirissem ou investissem no nosso trabalho, mas infelizmente até agora sem sucesso.
Quanto às novas plataformas de streaming, sinto que o investimento [em produtos] nacionais tem sido fraco, ou então, é feito sempre nos mesmos produtos. Já estou nesta área desde de 2007 e os meus filmes já foram vistos mais de 17 milhões de vezes. Temos uma legião de fãs e acho que estava na altura de darem uma oportunidade a canais como o nosso porque efetivamente existe audiência que gostaria de ver os nossos conteúdos no grande ecrã.
“Lenhador Assassino”, “O Estrondo” e agora “Em Nome da Lei”. Como surgiu a ideia para este “Em Nome da Lei” e quão complicado é filmar qualquer coisa em Portugal sem apoios?
Há anos que já tinha na minha cabeça a ideia de fazer uma comédia policial. Em 2018, decidi que estava na altura de a criar. Liguei ao meu amigo Alex Carvalho (humorista, Youtuber e protagonista da série) que alinha sempre em qualquer ideia estapafúrdia, e em conjunto com o resto dos atores que entram na série, começámos a trabalhar no argumento. Os protagonistas da série têm todos os seus canais do Youtube de comédia, por isso, fizemos vários dias de brainstorming e escrevemos a série todos juntos.
Passar do papel para o filme é, sem dúvida, muito complicado. Ainda por cima quando estamos a falar de um policial: tem de ser minimamente credível. Sem dinheiro dependemos sempre de favores de amigos e familiares para arranjarmos materiais e espaços. Por exemplo, a esquadra são os escritórios de uma associação chamada U.DREAM, um dos locais do crime é o armazém da empresa do meu pai, as armas e os distintivos foram comprados nas famosas lojas de material de carnaval e por aí em diante…
Filmámos tudo com apenas uma câmara e um microfone. A equipa técnica sou eu e alguns dos atores que me ajudam quando não estão em cena. São estes desafios que fazem com que seja especial e muito, mesmo muito divertido para todos nós trabalhar nestes projetos. Estamos sempre a rir durante a rodagem. O episódio 1 demorou cerca de 15 dias a rodar mais 2 meses a editar.
Provavelmente bateste o recorde de dizer a palavra Cona num filme nacional – ultrapassando o “recorde” recente do Tristeza e Alegria na Vida das Girafas. Explica lá porque decidiste colocar uma personagem que repetidamente – ao estilo “I’m Groot” – a dizer isso?
Não sabia! Infelizmente não consegui assistir à última obra do Tiago Guedes enquanto esteve em exibição.
A ideia para a personagem do “Cona” foi sem dúvida inspirada no “Groot” do filme “Os Guardiões da Galáxia” e foi introduzida com o objetivo de trazer imprevisibilidade à narrativa. Com esta personagem podemos ir para onde quisermos e dá-nos liberdade para introduzir diversos momentos cómicos na interação com outras personagens. Além disso torna a série mais relaxada, lembrando constantemente que estamos a ver uma série policial mas num universo com muita ficção e comédia.
No entanto, ter uma personagem que só diz “Cona” foi uma decisão difícil de tomar. Tínhamos receio que fosse demasiado obsceno! Felizmente correu bem e o Cona é a personagem favorita da maior parte das pessoas. Até já tem uma página de fãs no Instagram! Já se sabe que também é preciso deixar uma palavra de apreço ao Vasco Miranda que interpreta o Cona e fez um trabalho incrível!

O episódio vai já com mais de 100 mil visualizações em poucos dias. Como te sentes com esse sucesso?
Sinto-me muito feliz e orgulhoso desta equipa que conta com mais de 25 pessoas que participaram de corpo e a alma neste projeto. Sem a resiliência deles, este episódio não existia. Têm de ser pessoas muito especiais para se meterem numa aventura destas só porque sim.
Faz-me acreditar que existe um futuro em Portugal para conteúdos mais arrojados e fora da caixa como é o caso do “Em Nome da Lei”.
Imaginado como filme e trabalhado agora como série, já tens guiões e ideias de como o Em Nome da Lei vai evoluir?
Sim, temos. A ideia é a 1º temporada ter 3 episódios. Estamos a procurar apoios para fazer mais 2 episódios. No dia 10 de Junho fizemos um livestream com todo o elenco para angariar dinheiro para a produção dos próximos episódios. Por isso, deixo aqui o apelo a quem quiser contribuir e ajudar-nos a produzir os próximos episódios. Podem contactar-nos através de [email protected].
Com esta pandemia, muitos trabalhadores ligados ao audiovisual ficaram sem trabalho. O que achas que devia ser feito para corrigir essa situação e evitar que se repita no futuro?
Este é sem dúvida um problema complicado de resolver. Dificilmente poderá ser tratado com meia dúzia de medidas. Parece-me ser um problema estrutural com algumas décadas de atraso. Em Portugal, nunca se deu o devido valor à cultura e à iniciativa individual.
Na minha opinião, deveria ser feito um investimento na cultura a longo prazo com um programa credível que atravessasse todos os governos e com o apoio de todos os partidos com assento na assembleia da república. Só assim poderemos estar ao nível de outros países.

