Depois de “Dia” (2018) e “Stray Dogs Come Out At Night” (2020), Hamza Bangash leva até Locarno “1978”, curta de ficção que serve de referência ao ano em que o Paquistão se tornou consideravelmente mais militante na sua adesão às crenças islâmicas, logo após o golpe de estado um ano antes que levou o general Zia-ul-Haq ao poder.

E nada melhor que Lenny (Muhammad Zeeshan brilhante), um rockstar made in anos 60 como o centro dessa transformação ideológica de um regime e sociedade que implantou uma série de novos códigos de conduta e moral. O ato de rebelião contra o estabelecido desta figura claramente punk fica logo marcado na primeira cena, quando Lenny urina contra os cartazes do novo totalitarismo.

No fundo, esta é uma viagem simples e conseguida a alguém que se recusa a acompanhar os novos tempos, com o cineasta a jogar com os close-ups e flashbacks para confrontar dois tempos diferentes, duas ideologias, duas religiões (Lenny tem raízes cristãs, mas a liberdade é o seu princípio) e maneiras distintas de viver que fomentaram desequilíbrios e injustiças em catadupa. Isso mesmo fica explícito quando Lenny tem a oportunidade de brilhar e acatar o novo regime quando é convidado a fazer parte de um programa de TV, coisa que ele magistralmente afunda numa cena final memorável.

Com atenção ao detalhe, em especial no que toca à direção artística/ design de produção (o cineasta construiu mesmo uma discoteca), e uma fotografia carregada de tons psicadélicos com apetência para os néons, “1978” nunca esquece o seu lado político e reflexivo no meio de uma construção estética e narrativa que se revela tão cativante e carismática como o “bad boy” protagonista.