Vencedor da última semana da crítica em Cannes, J’ai perdu mon corps marca a estreia do realizador e animador Jeremy Clapin, o qual também trabalhou o guião com Guillaume Laurant, o autor do romance no qual o filme se baseia. Com um profundo toque surreal, uma grande noção de ritmo, uma palete cores entre o vibrante e o seco, nesta verdadeira jornada física e emocional em 2D – onde não faltam os flashbacks -, seguimos uma mão [ao estilo da de A Família Adams) que tenta desesperadamente reencontrar o dono amputado.

Nessa jornada repleta de obstáculos, que vão desde um pombo num telhado a ratazanas nos túneis do metropolitano, Caplan entrega-nos a história da vida de Naoufel, um jovem cujos pais faleceram quando era criança, num evento que o marcou para sempre. Em Paris, ele trabalha a entregar pizzas, mas denota-se a fraca apetência para o emprego, encontrando-se essencialmente perdido entre o que é e o que quer ser, ganhando novo alento quando se enamora por uma jovem.

O resto é pura poesia, não apenas nas palavras, gestos e vibrantes emoções expostas, mas em todo o tratamento visual de uma obra que não esconde a sua vocação adulta, num género que além fronteiras, em particular nos EUA, se refugia essencialmente nos braços infanto-juvenis. E no processo de desconstrução e emancipação de uma personagem martirizada, Caplet constrói toda uma metáfora: há uma mão que procura o dono, tal como o jovem procura um rumo e sentido para a sua existência numa sociedade fraturante, implacável e repleta de obstáculos.

J’ai perdu mon corps é como se os mundos de Quentin Dupieux e Michel Ocelot colidissem. E por isso é um filme a não perder.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
j-ai-perdu-mon-corps-por-jorge-pereiraÉ como se os mundos de Quentin Dupieux e Michel Ocelot colidissem