
O cinema sempre forneceu as maiores e melhores catarses para algumas das piores tragédias da Humanidade. Para muitos, será frustrante testemunhar a falta de qualidade deste documento ilusório, baseado em factos reais, volvidos quatro anos após o homícidio brutal de Carlos Castro pelas mãos de um jovem modelo que cortejava.
Passada a fase de frustração, o que resta é uma das melhores comédias involuntárias desde que o cinema se chama cinema. De um amadorismo confrangedor, que começa logo no grafismo do genérico inicial, mas sempre terno na sua inaptidão e vontade de brincar aos planos fechados, é notório que Crime tenha nascido de uma peça de teatro, dada a ação decorrer 95% do tempo num único e só espaço. É notório também infelizmente o orçamento magro dado ao filme – não que isso tenha impedido alguns dos melhores realizadores mundiais de terem concretizado algumas das suas melhores obras!
Os nomes da história que todo o povo português conheceu foram mudados (direitos de autor? risco de processo?) – Carlos passou a António e Renato passou a Rodrigo. A ação também ela é geograficamente restrita nesta adaptação da realidade. Com tanta liberdade criativa restante, sobrou apenas espaço para uns planos demoníacos de uma lua cheia acompanhados de uma música meio onírica (algures entre Lisa Gerrard e a banda sonora de “Under the Skin“, só que não), um momento transformista “lugar às velhas“, nudez masculina (polegar para cima), e uma presença desconcertante de um dildo a fazer uma viagem por um bar até aterrar numa mala feminina para chamar a atenção de Renato, não, Rodrigo.
Carlos Castro merecia melhor filme. Renato Seabra merecia um outro ator. Crime poderia ter sido bom, se talvez tivesse ido para Nova Iorque e tivesse encontrado o seu princípe esquartejador capaz de desconstruir isto de uma maneira um nadinha mais subtil, e com muito mais engenho e meios. Ou então estava, tal como o protagonista real, condenado ao melhor e ao pior dos destinos – ser tão mau, mas tão mau, ao ponto de suscitar jogos de shots num futuro onde espectadores suficientes consigam ter acesso a esta obra maldita. O meu passará inevitavelmente por beber sempre que João D’Ávila profere “Nova Iorque” como quem está a ter o momento da sua vida. A alegria “orgásmica” é de tal modo contagiante que é favor esquecer a estrela solitária abaixo e dirigir-se à sessão das 19.30 no Cinema City Alvalade. Com o bónus de poder levar o seu amigo estrangeiro (o filme está legendado em inglês, já pensando em partir para Nova Iorque num amanhã)… Tenha apenas cuidado em não provocá-lo…
O melhor: não aborrece
O pior: o evento “camp” do ano corre o risco de não ter 100 espectadores em sala.

André Gonçalves

