‘Wolf Creek’ por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Sinopse

Baseado em factos reais, ‘”Wolf Creek” segue a história de três jovens que viajam numa zona remota da Austrália. Quando o seu carro tem problemas, eles aceitam a ajuda de um local, Mick Taylor (John Jarratt), que os leva até à sua casa.
Após uma interminável viagem, os jovens finalmente chegam a uma mina abandonada. Aí preparam a comida e Mick tenta arranjar o carro. No dia seguinte, descobrem que tudo não passou de um esquema; que Mick não tenciona arranjar a viatura e muito menos os deixar partir.

Elenco

John Jarratt, Cassandra Magrath, Kestie Morassi, Nathan Phillips

Realizado por Greg McLean

Crítica

Conseguir fazer um bom filme de terror sem um único susto é algo que só raros cineastas conseguem fazer. Greg McLean é um deles.

Wolf Creek” é mais um filme que “explodiu” em Sundance, e o seu impacto foi de tal maneira – e mesmo que o cineasta negasse as ligações específicas a um único caso real – que houve uma tentativa de adiar a estreia da obra, devido ao julgamento de um homem (Peter Falconio) na Austrália- cujo crime era muito semelhante ao explícito neste filme.

Em “Wolf Creek” estamos na Austrália e três jovens partem numa viagem onde atravessam o interior do país, fazendo uma última paragem no Parque Nacional de “Wolf Creek”. Este local, que realmente existe, apresenta na sua paisagem a segunda maior cratera do mundo – provocada pela queda de um meteorito. O espaço, pelas suas características paisagísticas (e vítima de um isolamento), é naturalmente vítima do folclore local e de mitos diversos, sendo recorrente falar da presença de aliens e de fenómenos sobrenaturais. É neste local que somos abandonados, onde o isolamento e o enternecimento (com os contornos românticos que dois dos viajantes começam a manifestar) nos deixam com sensações paradoxais.

Mas o problema deste grupo é mesmo deste planeta e começa quando os seus relógios param e o carro não dá sinal de vida.

Voltando um pouco atrás na narrativa, este é um filme que desde o inicio se distância dos slashers do género. Primeiramente são-nos calmamente apresentadas as personagens, criando logo o espectador uma empatia (ou não) por elas. Depois, a forma como executam o percurso inspira sempre a desconfiança, pois se a beleza das paisagens nos atrai, a solidão e isolamento das mesmas transpiram uma sensação de algo vai acontecer de errado…Tobe Hooper em “Texas Chainsaw Massacre” criou-nos essa sensação com a decoração da casa onde vive aquela família canibal. Todo o ambiente inspira um desconforto, uma desconfiança e transpiram incessantemente uma violência latente…

Nesse aspecto McLean é exímio, atemorizando e enervando a audiência com estes elementos subliminares que nos condicionam emocionalmente e nos fazem antever que algo de grave vai acontecer. “Shining” também fez isso. “Blair Witch Project” é outro exemplo. Mas o mais engraçado é que “Wolf Creek” não procura inspiração em qualquer filme, relembrando apenas que coisas más acontecem a qualquer um, e pouco ou nada podemos fazer para contrariar isso.

A diversão e encantamento, ainda que condicionados, dão assim lugar a um enorme pesadelo onde a sensação de impotência é tremenda. Senti muito isto em “Funny Games” de Michael Haneke.

Depois ainda há referências a alguns estereótipos australianos, onde até Crocodile Dundee vem à baila. Mas o Crocodile Dundee deste filme é tenebroso.

E por tudo isto, “Wolf Creek” é um filme que do princípio ao fim nos condiciona e aterroriza como muitos poucos. É que pior que um esporádico pulo da cadeira é a sensação constante de incerteza, ainda mais carregado quando sabemos que mesmo que haja escapatória o isolamento pode agir contra eles…

E são estas sensações que nos tornam demasiado pequenos no Universo, e dão um maior realismo de forma perversa. Para além disso, todos aqui têm um rosto e não se escondem em razões cliché para os seus actos. O vilão escapa à típica máscara, não tem gadgets que o distinguem, não tem uma explicação para o que faz…É mau..puramente mau…até demente, dirá o espectador.

Rogert Ebbert definiu este filme (quase) como um ensaio nilista, mas o que realmente o perturbou foi o desconforto e a impotência total, sendo a única saída a negação, o virar os olhos para o outro lado…

Mas não é isso que se espera de um filme deste género? … …8/10 …. Jorge Pereira

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