“Bestas do Sul Selvagem” começa por nos desorientar com a sua câmara tremida e imagem não tratada (um não-tratamento muitíssimo bem feito, diga-se de passagem), e depois vai-nos, ora encantando, ora desorientando ainda mais, com um misticismo que traz uma metáfora bem óbvia às costas.
Muito do seu encanto é conquistado através do olhar de uma criança. Quvenzhané Wallis, justamente nomeada para o Oscar de Melhor Atriz, é mais um daqueles pequenos prodígios que torcemos para que não murche num futuro próximo. É sob o seu olhar, inocente e curioso, que o espectador acompanha uma história clássica de pai (Dwight Henry, igualmente magnético, e igualmente sem experiencia enquanto ator!) e filha, aqui com um cenário pós-Katrina – e pós-aquecimento global – a servir todo um subcontexto social e existencial.
“Bestas” atinge alguns momentos de poesia e catarse a relembrar Terrence Malick, nomeadamente nos momentos em que a sua pequena protagonista se apercebe da efemeridade da vida, que é basicamente todo o ponto do filme. No final, saímos com a sensação de termos visto algo único q.b., a nível visual e narrativo, e que requer uma digestão mais demorada que o habitual filme norte-americano “made in Sundance“. Ainda assim, por todo o respeito e admiração que nutro por este empreendorismo, não consigo deixar de pensar que lhe falta maturidade para esta ser a obra-prima transcendente que muitos acreditam ser…
O melhor: o empreendorismo de Benh Zeitlin e a sua “crew” e o magnetismo dos seus desconhecidos tornados atores
O pior: o excesso de “hype” que gerou acabou por colocar a fasquia demasiado alta para este espectador.
| André Gonçalves |

