O australiano Fred Schepisi não é certamente o realizador mais conhecido da maioria dos espectadores de cinema. E a verdade é que o veterano realizador tem pouco mais de uma dezena de filmes, e passa bastante tempo sem apresentar novos trabalhos. Mesmo assim, há algumas obras, da sua “atarefada” década de 80, que povoam o imaginário popular: tais como a comédia “Roxanne”, em que o narigudo Steve Martin tenta conquistar Daryl Hannah, ou “A Cry in the Dark”, um intenso drama em que Meryl Streep tenta provar ao mundo que o “dingo” lhe roubou o bebé.
Neste novo trabalho, Fred Schepisi baseia-se no romance “The Eye of the Storm” de Patrick White, galardoado com o prémio nobel da literatura em 1973, ao que parece muito por responsabilidade desta obra. A história centra-se numa família da alta sociedade australiana cuja matriarca está às portas da morte. Rodeada de empregados, mas sem família e amigos junto, Elizabeth Hunter espera pelo dia em que se vai decidir morrer. A chegada dos filhos junto do leito materno acaba por abrir, em todos, dolorosas memórias do passado – responsáveis pelo afastamento que hoje vivem.
Suportado pelo trabalho meritório dos atores, com Charlotte Rampling magnifica, o filme vai avançando em passos seguros, talvez demasiado seguros. Falta aqui um ponto de rutura claro, que não deixe a sensação de que todos acabam por estar resguardados e escondidos numa capa de politicamente correto. Na verdade, esta dificuldade de transição da palavra ao grande ecrã tem-se verificado em diversas fitas, conseguindo assim banalizar obras magistrais de literatura, e arrisco-me a dizer que aqui aconteceu o mesmo – mesmo sem ter lido o livro no qual o filme se baseia.
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Fred Schepisi não compromete o resultado final e acaba por realizar um filme agradável, bem feito mas que deixa a sensação de que teria potencial de sobra para ser francamente superior. Pelo menos, a crer no trabalho do trio de protagonistas, com Judy Davis e Geoffrey Rush absolutamente equilibrados entre o snobe da sua posição e a fragilidade que a distante célula familiar lhes conferiu. E Charlotte Rampling, que pouco mais velha é que os seus “filhos” do filme, mas cuja transformação a todos os níveis é soberba.
O Melhor: o trio de protagonistas.
O Pior: Ter faltado arrojo para fazer algo melhor.
| Carla Calheiros |

